Minhas reportagens

NETmundial pede internet a serviço do desenvolvimento humano

Reportagem publicada no portal do MCTI em 2014

2014_04_24_mcti_netmundialCompromisso com o desenvolvimento humano por meio da construção de uma sociedade da informação aperfeiçoada é o principal objetivo da declaração aprovada ao fim do Encontro Multissetorial sobre o Futuro da Governança da Internet (NETmundial). O evento em São Paulo se encerrou em 24 de maio, com participação de 830 pessoas de 97 países – representantes governamentais, acadêmicos, técnicos, ativistas e sociedade civil em geral – além de 33 hubs instalados em 30 cidades de 23 nações. Leia mais.

Usinas do Rio Madeira: problema ou solução?

Série publicada na Agência Brasil em 2007

Um dos cinco trabalhos finalistas do Prêmio Caixa de Jornalismo Social em 2007, na categoria web, a grande reportagem reuniu quatro veículos da então Radiobrás, com destaque para Agência Brasil e TV Brasil, que enviaram equipe a Porto Velho. Elaborei a pauta e coordenei a realização do especial.

Xingu em três tempos

Série publicada na Agência Brasil em agosto de 2007

Material produzido a partir de visita à Aldeia Ipatse, a principal do povo Kuikuro, uma das etnias que habitam o Parque Indígena do Xingu. Fui enviado pela agência da então Radiobrás para cobrir o lançamento de série de documentários do jornalista Washington Novaes, que havia retratado o Xingu duas décadas antes e voltou à região em 2005 para registrar as transformações nos costumes dos índios e no ambiente. Aqui está parte das fotos que fiz, de uso livre e gratuito desde que citada a fonte. Algumas das matérias produzidas:

Para documentarista, trabalho audiovisual contorna conflito entre gerações de índios
Arqueólogo reivindica reconhecimento de civilização milenar no Xingu
Sociedades amazônicas abrem um capítulo na história, diz Heckenberger

Terra invadida

Reportagem multimídia publicada na Agência Brasil em agosto de 2006

O especial resultou do acompanhamento de uma operação para retirar grileiros da Terra Indígena Kayapó, no Pará, e foi um dos cinco finalistas do Prêmio Caixa de Jornalismo Social em 2007, na categoria web. Um caso específico que mostra, na ponta, os desafios amazônicos – como manter a biodiversidade e a cultura indígena diante das pressões por um retorno financeiro rápido. Viajei com o fotógrafo Marcello Casal Jr.. Também pela Agência Brasil, Julio Cruz Neto e Antonio Cruz cobriram a segunda etapa da ação.

USP identifica nova espécie de periquito

Publicada na Folha de S.Paulo em 23 de fevereiro de 2005

O Aratinga pintoi, ou cacaué, mede 30 cm e vive na Amazônia; animal era confundido com filhote de outra ave

Pelo visto, o Brasil ainda é a “terra dos papagaios”, apelido dos primórdios do período colonial. As 82 espécies de psitacídeos (papagaios, araras e afins) do país acabam de ganhar um reforço: o Aratinga pintoi, nova espécie de periquito do baixo Amazonas.
A ave habita um enclave de vegetação aberta na floresta, mede cerca de 30 cm e é popularmente chamada de cacaué. Até aqui, os exemplares em coleções científicas eram confundidos com jovens de um parente próximo, a jandaia-sol (Aratinga solstitialis). A separação foi proposta por Luís Fábio Silveira, Flávio César de Lima e Elizabeth Höfling, do Departamento de Zoologia e do Museu de Zoologia da USP, em artigo publicado na revista especializada “The Auk” (www.aou.org/auk).
De acordo com o trabalho, a semelhança entre o cacaué e os jovens da jandaia-sol, batizada há mais de 200 anos, pode ter colaborado para a duração do equívoco, levando pesquisadores a associar sua plumagem diferente a uma idade intermediária.
Complicava a solução do enigma o fato de os museus não terem simultaneamente boas amostras das duas espécies. Nos do Brasil, praticamente só havia o cacaué, e nos do exterior, a jandaia-sol.
Antes do trio, alguns sistematas (biólogos que estudam o parentesco e a classificação dos seres vivos) haviam levantado outras hipóteses: os tais exemplares destoantes de jandaia-sol seriam híbridos da espécie com um terceiro representante do gênero na região amazônica ou simplesmente indivíduos que ganharam uma cor diferente por causa da alimentação recebida em cativeiro.
Em 1966, o ornitólogo Olivério Mário de Oliveira Pinto esboçou a reclassificação hoje levada adiante. O segundo nome do animalzinho (pintoi), aliás, deriva do sobrenome do pesquisador, morto em 1981. “Ele só não chegou à nossa conclusão por insuficiência de material”, avalia Luís Silveira. “Nós o homenageamos por isso e por ser o maior sistemata de aves que o país já teve.”

Bicho diferente

A bola foi cantada para Silveira em 1999, por um criador de aves que o avisou sobre um “bicho diferente” que vinha sendo encontrado no Pará. Para desatar o nó, o pesquisador esteve em museus no Brasil, na Europa e nos EUA. Terminou de encaixar as peças só em 2003, após observar a ave em liberdade perto de uma cidadezinha às margens do Amazonas.
“É um caso emblemático, que comprova a importância das coleções biológicas”, diz. “Felizmente já se fala muito em biodiversidade, mas para que ela seja conhecida os cientistas precisam de material de estudo e, às vezes, até mesmo o governo, que deveria ser um dos maiores interessados no conhecimento da diversidade, tem dificuldade em reconhecer a importância das coleções.”
Nelas, os animais são conservados, às vezes, durante centenas de anos, e podem ser examinados por biólogos, constituindo referência para revisões nas classificações e nos estudos evolutivos.
Depois da boa nova do achado, um problema: o status de espécie pode aumentar a pressão de tráfico sobre o cacaué, alertam os três autores do estudo. Além disso, ainda não está clara sua área de ocorrência, mas eles dizem acreditar que é restrita.
“Se os pesquisadores concluírem que a espécie corre risco, eles podem recomendar sua inclusão na lista das ameaçadas”, afirma Roberto Cabral Borges, chefe de fiscalização de fauna do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Ele lembra o caso da ararinha-azul, que foi considerada extinta na natureza, depois redescoberta e novamente perseguida por passarinheiros.
“O reconhecimento da espécie como ameaçada pode orientar diversas medidas, como a formação de um comitê para monitorar sua população e um programa local de educação ambiental”, explica Borges. Em alguns casos, os cuidados incluem a criação de uma reserva para proteger o animal.
Os psitacídeos são um grupo particularmente vulnerável de aves. Das 82 espécies brasileiras, 14 estão ameaçadas de extinção e uma já foi extinta, além da ararinha, hoje só achada em cativeiro. Os principais motivos são o comércio ilegal e a destruição do habitat dos pássaros.
O trabalho contou com apoio do Ibama, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo) e da UPS Brasil.

Os invasores

Publicada na revista Carta Capital em maio de 2005

Impulsionados pelo homem, animais e plantas chegam de fora com riscos à provável maior biodiversidade do planeta – e também à saúde e à economia

Vivem aqui de 50 mil a 56 mil espécies vegetais nativas. Mais, acredita-se, que em qualquer outro canto. Em termos de mamíferos, as 524 espécies descritas são insuperáveis. Os peixes fluviais devem totalizar perto de 3 mil, recorde quase certo. Somando-se a estes as 1.622 espécies de aves, 468 de répteis e 517 de anfíbios, virtual primeiro lugar nos vertebrados em geral. De posse desses números de 1997 (mas que pouco mudaram) e levando em conta a extensão do território, sua vasta gama de ecossistemas e as lacunas de conhecimento que restam na área, Ibsen de Gusmão Câmara, autor de Megabiodiversidade Brasil, conclui: o país é “muito provavelmente” o campeão em diversidade biológica. Isso, porém, não nos livra de uma preocupação mundial: a chegada diária de animais e plantas de todo o globo trazendo, muitas vezes, benefícios quando manejados, mas também riscos de grande monta.

Alguns casos já ganham as páginas de jornais e revistas e até a tela da TV. Uma espécie de mexilhão galgou mais de 2 mil quilômetros da Bacia do Prata e já se acomodou numa série de hidrelétricas. Na baía da Ilha Grande, no litoral fluminense, um coral do Pacífico está modificando a paisagem marinha. Camarões malaios escapam dos tanques de criação e colonizam os manguezais do Ceará e do Rio Grande do Norte. Por quintais, hortas e palafitas se arrasta um caramujo gigante, importado numa malsucedida tentativa de desbancar o escargot. Leguminosas da África cansam a vista do viajante no sertão nordestino.

A introdução de espécies exóticas (estrangeiras) é apontada como o segundo principal fator de perda da biodiversidade no mundo inteiro. Isso porque, ao se instalarem em novos locais, esses animais e plantas competem por espaço, luz e alimento com aqueles que já existiam ali, em muitos casos os predam ou os contaminam com moléstias e parasitas. Em certas situações, desencadeiam extinções em série. Se esse não sensibiliza, lá vai outro argumento “verde”: estima-se que, no mundo, as espécies invasoras custem por ano em torno de US$ 1,5 trilhão – mais que o dobro do PIB brasileiro – em gastos e prejuízos. O autor da projeção, David Pimentel, da Universidade de Cornell (EUA), baseia-se em dados segundo os quais África do Sul, Austrália, Brasil, Estados Unidos, Índia, Nova Zelândia e Reino Unido dispendem anualmente US$ 336 bilhões com esses espinhos (a parte que nos cabe beiraria US$ 43 bilhões). Estamos falando de plantações roídas por pragas, maquinário danificado por moluscos, marés vermelhas, navegação impedida por plantas flutuantes, apicultores às voltas com abelhas irascíveis, companhias pesqueiras levadas à bancarrota por invertebrados marinhos que devastam os cardumes (como o ctenóforo da página xx). E de tentativas de escapar ou sair desses reveses

Só agora se saberá o tamanho da invasão em território tupiniquim. Há um levantamento nacional em andamento, e em outubro, com a lista pronta ou quase, acontecerá em Brasília um simpósio sobre o assunto. “A relação deve passar de 400 espécies”, prevê André Jean Deberdt, da Coordenação de Fauna do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Essa conta diz respeito apenas a invasores já estabelecidos, que estejam procriando no novo lar. E não inclui fungos, bactérias e vírus, uma interface grave da questão, cuja catalogação ficará a cargo da Fundação Oswaldo Cruz.

A coordenação cabe ao Instituto Hórus e a The Nature Conservancy, dos quais partiu a iniciativa, depois ampliada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Diretora do Hórus, Sílvia R. Ziller despertou para o tema ao presenciar o alastramento dos pinheiros do gênero Pinus nos campos do Paraná, sem que fossem tomadas as medidas necessárias. Ela compara:

– Na poluição biológica acontece o contrário de um vazamento de petróleo, pois o impacto tende a crescer com o passar do tempo. E normalmente as pessoas só se dão conta quando o estágio já é adiantado.

Completam o time a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o Instituto Oceanográfico da USP, a Secretaria de Qualidade Ambiental do MMA e a Universidade Federal de Viçosa – e quem mais tiver informações, que podem ser encaminhadas via internet (www.institutohorus.org.br). Os mapas das próximas páginas, ainda em construção, resultam desse esforço conjunto.

Ocupar novas áreas sempre esteve entre as estratégias inconscientes de sobrevivência das espécies, mas, quando não havia facilitadores comparáveis a Boeings e transatlânticos, superar cadeias de montanhas, oceanos e vastidões de hábitats inóspitos costumava ser empreitada para milhões de anos, propiciada por reviravoltas climáticas ou pelas redefinições dos continentes. O que está catalisando esse fenômeno é a ação humana, com a modernização dos transportes, a intensificação do comércio global, a expansão da agricultura e da pecuária e a aceleração das mudanças no ambiente e no clima.

O mesmo “desenraizamento” e o potencial de estrago das exóticas se verificam com espécies brasileiras levadas para regiões que não as originais. Por isso, embora existam outros adjetivos para designá-las – alóctones ou translocadas -, elas também aparecerão no mapeamento. Um exemplo é o teiú, lagarto que tem feito grandes baixas entre os ninhos de aves marinhas em Fernando de Noronha. Outro, o tucunaré, que de símbolo amazônico vai se transformando em algo como um peixe de integração nacional. Colorido, bom de forno e de briga – é famoso pelos saltos espetaculares -, ele por outro lado varreu várias das espécies endêmicas (exclusivas) do lago Gatun, no Panamá, num curto período, segundo um estudo apontado como referência por especialistas.

A Embrapa monitora o tucunaré em sua mais nova frente de expansão – o Pantanal. Com a palavra, a pesquisadora Débora Marques:

– O que dá para dizer é que ele está estabelecido, mas não se sabe se em definitivo. Num novo local, o invasor acrescenta uma pressão àquelas que o ambiente já sofria e, por sua vez, sofre as pressões desse ambiente.

De acordo com Marques, tem aumentado a área de ocorrência do bocudo (apelido dados pelos pescadores esportivos), mas o esperado é que ele não se instale no rio Paraguai – a principal artéria desse bioma – nem no Miranda. O motivo é a água escura demais para seus métodos de caça.

Pois os sucessivos represamentos proporcionaram ao bicho condições ideais em grande parte da Bacia do Paraná. Angelo Antonio Agostinho, do Núcleo de Pesquisa em Limnologia da Universidade Estadual de Maringá (PR), acompanha o crescimento populacional e a dispersão da espécie ali. O pesquisador registrou a presença de 23 peixes “gringos” lado a lado com (ou contra) 170 nativos do Alto Paraná. E outro predador, um pouco menos voraz, está presente em quantidade sete vezes maior que a do tucunaré: a pescada-do-piauí, ou corvina-de-água-doce, também disseminada Brasil afora.

Via de regra, as políticas públicas de reforço à produção pesqueira e à piscicultura se deram com espécies estrangeiras ou alóctones – sem falar nos “peixamentos” clandestinos realizados por pescadores, por vezes de helicóptero. Outro vetor de propagação da peixarada são os milhares de pisciculturas e pesque-pague. “Muitos deles instalam mal seus açudes e na primeira cheia povoam os rios vizinhos”, denuncia Agostinho.

Voltando à terra firme, o búfalo. Na Reserva Biológica do Vale do Guaporé (MT), manadas desse bovino de até uma tonelada pisoteiam nascentes, interferindo no ciclo das águas. No Rio Grande do Sul, corre a terceira temporada de caça ao javali, sem resultados conclusivos e com o perigo de criar um público cativo. O bicho também dá uma força para as vendas de equipamentos como um pequeno canhão capaz de estrondos de 100 decibéis de minuto em minuto. Em 2004, um fabricante nacional vendeu 100 destes, por 650 a 750 reais cada, a fazendeiros que querem os bandos do suíno longe do milho e da soja. Já a lebre européia, que só conhecíamos pelas fábulas, ataca as lavouras, mas pode estar beneficiando nossas onças, ao fazer o papel de presas que desapareceram. Acionado por causa dos ataques de onças-pardas ao gado em Botucatu (SP), que vêm saltando e despencando em biênios alternados, o especialista em carnívoros Carlos C. Alberts, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), estuda uma hipótese: as lebres permitem um incremento da população de onças mas escasseiam de dois em dois anos, forçando-as a se abastecer de vacas e ovelhas.

André Deberdt pede atenção para a rã-touro, “que elimina tudo que há de anfíbios onde chega” e é um dos 100 mais indesejáveis, no Banco Global de Dados sobre Espécies Invasoras. Presente no mesmo rol, o mexilhão-dourado conseguiu se espalhar do porto de Buenos Aires, aonde chegou em 1991, até as águas sul-matogrossenses em 9 anos, sem contar com pernas, asas ou nadadeiras. O molusco asiático mereceu em 2004 uma força-tarefa nacional coordenada pelo MMA, mas segue perturbando a rotina de usinas como Itaipu, pois adere às pencas a qualquer superfície firme – sejam pedras, troncos, turbinas ou tubulações.

Esse é apenas um do imenso cardápio de seres vivos que diariamente cruzam o mundo de carona em embarcações. Um grande navio pode transportar mais de 70 milhões de litros de água de lastro, e formas jovens e adultas de centenas de espécies nela (como a larva de caranguejo que aparece nesta matéria), sem falar nos cascos incrustados. Foi criado um programa mundial para tratar especificamente do assunto (existe também um programa da ONU para as invasoras em geral). Nele, seis portos de países periféricos – um deles Sepetiba, na costa do Rio de Janeiro – sediaram um projeto piloto. As ações no Brasil demandaram cerca de US$ 1 milhão em seis anos e envolveram autoridades marítimas, ambientais e sanitárias. Além de dar notícia de preocupantes 1.060 espécies exóticas ou antes não registradas nos arredores, o período permitiu testar procedimentos como a análise de risco, que possibilitará vistoriar as embarcações com maior chance de causar problemas.

– A tendência para a maioria dos portos é essa, porque inspecionar todos os navios teria um impacto na rotina portuária e um custo muito alto. Provavelmente os países delimitarão pontos para despejo em alto-mar, mas a melhor forma de tratar a água antes disso ainda é uma incógnita – explica Robson José Calixto, da Secretaria de Qualidade Ambiental, que capitaneou o programa em águas brasileiras. Espera-se que 26 países se somem a Brasil, Espanha, Argentina e Síria para ratificar uma convenção internacional com regras para essa prática.

Claro que a escala é outra, mas a soltura de animais silvestres comprados como pets também está longe de ser inofensiva. Além de dar trabalho extra para o Corpo de Bombeiros em áreas urbanas e ensejar encontros indesejáveis, tal descuido desembocou na introdução de pítons (serpentes que podem passar de 6 metros) nos Everglades, nos EUA, e das tartarugas-de-orelha-vermelha em três continentes. Elas estão nos lagos de parques públicos de Brasília, São Paulo e outras grandes cidades. Intencionais ou não, as introduções em geral são passíveis de punição via Lei de Crimes Ambientais, de 1998. Não se sabe, entretanto, de condenações significativas até o momento.

O que fazer quando uma espécie alienígena vem para ficar? Manaus experimentará essa tarefa durante os próximos 17 meses. A previsão é do coordenador local da campanha de controle ao caramujo-gigante-africano, Harley Liberato, da Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente. “Só vamos ter sucesso se a comunidade se envolver para valer”, diz ele. Por isso, apenas em cartazes, outdoors e inserções na TV a prefeitura desembolsou R$ 150 mil. E tome adulto e criança com luva de látex catando caramujo, por sinal outro integrante do ranking maldito. Dezenas de municípios em onze estados vêm promovendo mutirões parecidos, sob orientação do Ibama.

Na África do Sul, um programa governamental emprega 20 mil pessoas de baixa renda na erradicação de plantas que comprometem o acesso a água. Esse, no entanto, é um caso-modelo de iniciativa bem-sucedida. No extremo, usam-se predadores ou pragas (supostamente) controlados. O caso clássico é o da Austrália, onde, introduzido, o coelho devastou pastagens, e o governo, para dar cabo dele, importou raposas e outros inimigos naturais, construiu extensas cercas e chegou ao cúmulo de propagar um vírus também importado.

Ponto pacífico: evitar esses desastres sai bem mais barato que os reverter. Obstáculo: no meio do caminho há interesses econômicos e, por vezes, sociais. Como frear a utilização de um peixe ultra-rústico, de boa cotação e precoce na engorda e na desova, como a tilápia, de capins amplamente adotados por pecuaristas, como o gordura e a braquiária, ou da algaroba, leguminosa que garante forragem para o gado no estio do semi-árido – que, ao mesmo tempo, jogam pesado contra os rivais no ambiente natural? No ano passado, o Ibama contabilizou 417 criadores de javali sem licença só em Santa Catarina, sendo que abrir novos criadouros está proibido desde 1998.

Flávio Bertin Gandara, professor de ecologia vegetal na Esalq (Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz), pondera ser inviável aposentarmos vários dos carros-chefes da alimentação, como feijão e arroz, hoje quase globais, mas defende escolhas mais criteriosas e políticas públicas induzindo e mesmo determinando o emprego de espécies nativas, inclusive na arborização das cidades. “Essa é uma das premissas da agroecologia”, diz. Uma nuance da discussão:

– Não há grande risco de entrada de plantas agrícolas em nossos ecossistemas, porque elas foram ‘domesticadas’ ao longo de séculos e dependem muito do manejo humano (ele comenta, aqui, apenas as invasões, não efeitos gerais da monocultura). Já com as espécies forrageiras, frutíferas e ornamentais, são muitos os casos.

Entre as de maior risco nessas categorias Gandara cita a leucena (outra leguminosa), a jaca, em algumas situações, e a banana ornamental.

Com relação às opções, é diferente a opinião de José Manuel Cabral, chefe de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Embrapa, o órgão que encabeça a pesquisa científica no campo brasileiro:

– Valorizamos as espécies nativas, mas o raciocínio não é substituir uma coisa pela outra e sim aumentar o poder de previsão e rastreamento de possíveis pragas. A maior parte do que o agronegócio trabalha não é daqui.

Estão agendados para este ano pelo menos seis encontros ou painéis internacionais sobre espécies invasoras. Ótimo, porque, se a compreensão do problema e as medidas preventivas não deslancharem, dá para imaginar, num prazo não tão distante, o mundo como um grande jardim zoobotânico nivelado por baixo. É que essa globalização favorece as plantas e animais oportunistas – aqui, a palavra em sua conotação biológica -, que se viram bem mesmo com a presença humana, enquanto o cenário não pára de piorar para os mais exigentes, já raros. No fio da navalha, encontra-se um patrimônio nacional difícil de pôr na calculadora, com possibilidades para o ecoturismo e para novos medicamentos, alimentos e produtos – além da simples e boa curtição de suas paisagens.

Casamentos perigosos

Contaminação e empobrecimento genéticos são atalhos para o fim de uma espécie. Ironicamente, explica o especialista em peixes Angelo Agostinho, os melhoramentos conduzidos pelo homem podem contribuir para isso. Uma de suas mais antigas técnicas é a hibridação, praticada por meio de cruzamentos de espécies aparentadas (também acontece sem a interferência humana, mas é mais raro). Os híbridos com freqüência competem com seus parentais na natureza e os batem. Além disso, podem cruzar com eles sem gerar descendentes. Um caso famoso é o da truta inventada que eliminou uma de suas “ancestrais” de rios na costa oeste dos EUA. Aqui, uma das preferências da aqüicultura e dos pesqueiros recreativos é o tambacu, misto do tambaqui com o pacu. O ponto-e-vírgula, “produto” mais recente, combina os padrões do pintado e do cachara.

Não contribuirás para a invasão biológica

  • Evite ter em casa animais silvestres. A experiência mostra que na maioria das vezes nosso lar não é apropriado para eles ou o dono se cansa com a manutenção.
  • Se você tem um animal desses e quer se desfazer dele, em hipótese alguma o libere na natureza. Recorra a autoridades ou instituições do ramo (Ibama, zoológicos, museus etc). O bichinho receberá os cuidados adequados, e o ambiente agradece.
  • Ao voltar de viagem, não traga flores, xaxins, pedaços de madeira e, de preferência, nem barro no sapato. Sementes, ovos, larvas e fungos são freqüentemente transportados assim.
  • Procure se inteirar sobre o que você tem no jardim. Lembre-se de que os muros não barram a dispersão de sementes, auxiliada por aves e insetos, pelo vento ou pela água .
  • Ao comprar mudas ou sementes de plantas, certifique-se de que elas são mesmo daqui ou que não têm potencial de invasão. Cinamomo, ipê-de-jardim, jacarandá-mimoso e cássia-imperial são exemplos de plantas exóticas e invasoras vendidas como nativas. Além disso, cada região do país tem sua flora típica, que pode ser comprometida por misturas.
  • Nem sempre o plantio de uma árvore é benéfico para a natureza. Consulte um especialista antes de fazer isso. E nunca o faça dentro de unidades de conservação, a não ser com espécies do local.
  • Povoar com peixes rios e represas, por conta própria, não é uma boa ação. É difícil prever os impactos dos forasteiros, e eles dificultam o restabelecimento da fauna original, caso o local seja recuperado.

Fontes: TNC/Instituto Hórus e Ibama

Bichos geográficos

Confira as áreas do país onde já se encontram algumas das principais espécies-problema e saiba mais sobre elas.

Javali (Sus scrofa) – Chegou ao Sul vindo do Uruguai, de onde também não é nativo, provavelmente em 1989; em outras áreas, fugiu de criadouros. Cruza com porcos domésticos (dos quais é ancestral), transmite doenças, ataca plantações e animais de criação.

Caramujo-gigante-africano (Achatina fulica) – Trazido clandestinamente para uma feira agropecuária em Curitiba em 1989, já se encontra em 23 estados. Devora hortas e pode transmitir duas doenças fatais em casos excepcionais (não há registro aqui).

Tucunaré (gênero Cichla) – Introduzido por órgãos públicos em diversos reservatórios, já está também em rios do Mato Grosso do Sul, aonde chegou escapando de tanques de uma única fazenda em 1982. Predador voraz e adaptável.

Abelha (Apis mellifera) – A subespécie africana foi introduzida intencionalmente no Brasil há cinco décadas e se espalhou pela América do Sul. Ao se miscigenar com variedades européias que já eram criadas aqui, tornou-as mais agressivas.

Lebre-européia (Lepus europaeus) – Foi levada para a Patagônia, instalou-se há três décadas no Rio Grande do Sul e em 2001 transpôs o rio Tietê. Prima do coelho, é, até onde se sabe, pouco predada por nossos carnívoros de pequeno e médio portes.
Fonte: TNC/Instituto Hórus

A lei da cidade

Publicada na revista Problemas Brasileiros em setembro de 2011

Matéria sobre os dez anos do Estatuto da Cidade, o debate da reforma urbana e as principais questões enfrentadas pelos municípios brasileiros.

Na marca do pênalti

Publicada na Revista dos Bancários em abril de 2011

Matéria sobre a discussão e a elaboração do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT), bem como sobre os desafios urbanos e socioambientais da capital. Também entrevistei o governador Agnelo Queiroz, então recém-eleito.

Música urbana

Publicada na Revista dos Bancários em janeiro de 2003

Críticas, irônicas, apaixonadas…. Existem alguns milhares de canções sobre a cidade de São Paulo. Elas passam pelos mais diversos gêneros e contam um pouco da história paulistana

Ok, ok, poucos diriam que esta galáxia de arranha-céus que completa 449 anos “continua linda”. Mas, ainda que não desperte com freqüência louvações rasgadas como aquele abraço de Gilberto Gil, São Paulo – e seus bairros e suas ruas – figura em uma enorme quantidade de canções. Elas registram a convivência dos povos, o crescimento da capital, a loucura metropolitana e, mais recentemente, o cotidiano dos bairros periféricos. Vão da nostalgia de Lampião de Gás, de Zica Bergami, que fala de um gostoso quintal e de uma vovó preparando quitutes, à fúria de Vietnã do Brasil, em que o Pavilhão 9 equipara a violência diária de São Paulo (e do Rio) à da guerra que devastou aquele país. Passam pelo humor escrachado de São Paulo, São Paulo, do Premê – uma adaptação de New York, New York com menção a ratos e baratas e sugestão de um banho no Tietê -, e até pela ficção espacial de Sampa Midnight, de Itamar Assumpção, que relata a chegada de ETs na Avenida Paulista durante um blecaute. Tratamos aqui, portanto, de “homenagens” em sentido amplo.

Pode-se perceber um fio condutor nessa miscelânea? Para Luiz Tatit, professor do Departamento de Lingüística da USP, uma característica ao menos predominante é a ênfase mais no universo humano que no espaço físico. “Em geral são músicas mais envolvidas com o tipo de população, de regiões, com o modo de ser das pessoas do que com as belezas naturais”, opina. “Até porque [do contrário] não teria muito a falar.” Fica mesmo meio difícil imaginar a menina que vem e que passa num doce balanço a caminho… da Billings. “Os bairros aparecem como produto de visões de mundo específicas, e o encontro de etnias contribui para o humor, já que se enxerga o diferente como engraçado”, destaca. “Também aparece muito o habitante querendo ser sujeito em vez de objeto. Fica-se muito à mercê das coincidências, você não sabe se volta vivo [para casa], se não volta casado com alguém (risos)…”. Tatit ilustra a aula com composições de sua lavra no Grupo Rumo e em trabalho solo. Pro Bem da Cidade traz um anônimo comentando a inclemência da cidade-que-não-pode-parar contra “quem tem uma certa tendência a se espreguiçar em hora errada” e resolvendo: “Acho que vou ter que dar um jeito nessa cidade”.

Trem das Onze foi escolhida como “a cara” de São Paulo numa eleição promovida pelo SPTV há dois anos. A filha mais ilustre de Adoniran Barbosa – provavelmente com um empurrãozinho do personagem Adoniran, ele mesmo um símbolo da paulistanidade -bateu Sampa, tida como favorita, que ficou em segundo. Ah, em tempo: o músico, ao que se sabe, nunca sequer pisou no Jaçanã e definitivamente não viveu no Bixiga, embora o freqüentasse. Morou nos arredores da Rua 25 de Março e, com o dinheiro de “Não posso ficar/Nem mais um minuto com você…”, comprou um sítio em Cidade Ademar, esclarece Flávio Moura, um dos autores da recém-lançada biografia Adoniran Barbosa – se o senhor não tá lembrado (acaba de sair do forno pelo menos mais um livro sobre o compositor, cuja morte completou 20 anos em novembro: Adoniran: Dá Licença de Contar, escrito por Ayrton Magnaini Jr.). “Adoniran passou o resto da vida naquele bairro, que leva o nome do prefeito Ademar de Barros, um dos responsáveis pela descaracterização da cidade que ele cantou”, observa Moura, que vê um quê de sacada marqueteira no mapeamento do município feito pelo carismático filho de italianos. Também lhe chamam atenção os títulos com nomes próprios – Samba do Arnesto, Iracema… – “Trazem uma São Paulo em que as pessoas identificam o dono da venda”, continua. “Interessante, numa cidade onde o anonimato é a nota dominante.”

Quantas serão as canções de temática paulistana? Assis Angelo, produtor e apresentador do programa São Paulo Capital Nordeste (Capital AM, 1040 mHz), já contabilizou mais de 2,5 mil faixas. Calcule-se uma média de quatro minutos para cada uma. Ele levaria dez dias para ouvir todas, dormindo oito horas por noite e se dedicando integralmente no resto do tempo. Eleger a predileta, sem chance – “Uma, uma não dá.” Angelo pretende sistematizar numa enciclopédia esses doze anos de garimpo, assim que conseguir quem banque a edição, de estimadas 700 páginas. O paraibano de João Pessoa é só elogios à cidade, para onde se mudou em 1965. “São Paulo é uma quatrocentona maravilhosa”, diz. “Quando a pessoa quer progredir, ela ajuda; quando quer vagabundagem, bate.” O poeta cearense Patativa do Assaré descreve algo bem diferente em Triste Partida, do repertório de Gonzagão. Ela acompanha uma família de retirantes que vende tudo para tentar a sorte no então dito Sulmaravilha e “Só vive devendo/E assim vai sofrendo/É sofrer sem parar/Ai, ai, ai, ai…”

Nas contas de Assis Angelo, Adoniran perdeu para Tom Zé o título de compositor que mais remeteu à cidade – o baiano de Irará teria tratado dela ou de seus meandros em nada menos que 23 faixas. Numa das mais originais, narra uma suposta rixa entre o Edifício Itália e o Hilton Hotel. O primeiro, com seus 165 metros de altura, reinava inabalável na Avenida Ipiranga até ser construído o rival. Noutra criação impagável, o compositor brinca com a localização e o nome de duas avenidas e uma igualmente famosa rua, todas paralelas. A vaidosa Augusta e a Angélica furona atormentam um pobre coitado, que felizmente encontra a Consolação, “que veio olhar por mim e me deu a mão”. Tom Zé venceu o IV Festival da Record com a genial São São Paulo, Meu Amor, sobre a qual comentou à revista Caros Amigos: “Foi tomado como hino de amor, mas se tratava de uma pilhéria”. Afinal, cada um ouve como quer o par de versos conclusivo: “Porém, com todo defeito/Carrego-te dentro do peito”.

Certos locais, costumes ou elementos paisagísticos que desapareceram atravessam os tempos a bordo de acordes e estrofes. Assim se dá em Moda do Bonde Camarão, gravada por Inezita Barroso em 1960. Aqueles sucessivos passageiros se desequilibrando dentro do coletivo, expostos a situações embaraçosas, compõem um retrato musical de um meio de transporte que já foi característico. “Os bondes não tinham nada da precários”, diz Nestor Goulart Reis, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “Pessoas de renda alta e até crianças desacompanhadas os utilizavam, estudantes flertavam durante o trajeto.” Acontece que em ladeiras como a Pamplona e a Augusta o motorneiro por vezes surpreendia todos com uma freada brusca, para se divertir. Os bondes foram todos desativados ao longo da década de 60, numa das manobras de urbanismo lamentadas pelo professor (a última linha deixou de operar em 1967). O modelo camarão era fechado e pintado na cor do crustáceo.

A voz grave de Inezita seria a primeira a registrar Ronda, uma estação obrigatória da paulicéia musical. Um clássico, aliás, devidamente renegado por seu criador, o paulistaníssimo Paulo Vanzolini. Ele já disse que a música é brega e que se trata de “uma dessas coisas que a gente comete aos 21 anos” (está com 78). Traçou, no entanto, um precioso mapa da mina numa parede do extinto bar Vou Vivendo: “No tempo em que eu era rapaz, a boemia se centrava na Avenida São João, do Largo Paissandu um pouco para cima. Era uma boemia de bares de orvalho, de dancings [lugares onde se pagava para dançar com moças] que furavam cartão, de restaurantes de sopa barata de madrugada. Era uma boemia de conversas de pouca coisa e devagar por noite afora. Às vezes entrava no bar uma mulher de jeito preocupado, olhava bem na cara de todos e saía como tinha entrado; ia provavelmente para outro bar. Um dia, pensei em fazer um samba que começasse: ‘De noite eu rondo a cidade…'”.

O Centro de tempos idos fisgou e moldou outra figura emblemática da capital, Germano Mathias. Nos anos 50 ele se juntou aos engraxates da Praça da Sé, e a latinha de graxa (a tampinha, na verdade), castigada com maestria, acabou se tornando sua marca registrada. “Eu passava no local a caminho da escola, e sempre estavam lá uns doze ou quinze batucando”, recorda. Na praça, Germano via o recreio dos integrantes da nata da malandragem, que ali papeavam e jogavam capoeira. “Na hora de bater carteira, entravam nos bondes”, recorda. Foi no Paulistano, clássica gafieira onde o sambista cantava, que ele conheceu Yvone, com quem está há 28 anos. O casal mora há sete anos em Parada de Taipas, limite norte do município, e Germano conta que não circula pelos arredores do Marco Zero, a não ser a caminho de shows. “No meu tempo existia o malandro, hoje tem o bandido”, justifica. Aos 68 anos, garante que passa os dias jogando palavras cruzadas e exibe uma dúzia de dicionários, que vão do Houaiss ao Vocabulário Poliglótico Recreativo. Apesar de não desfrutar a cidade com a mesma intensidade, o intérprete rasga seda para ela: “É o coração do Brasil e onde o samba encontra melhor acolhida.” Seu novo disco, por sinal, contém uma música chamada São Paulo, Mãe-Madrinha, do parceiro Elzo Augusto.

Quando aquela idéia de “locomotiva” cede lugar à de “caos”, como sinônimo da metrópole, no imaginário das pessoas? Para Nestor Reis, na década de 60. Uma série de processos explicaria a virada. “O Centro foi se esvaziando economicamente e sendo transformado num grande terminal de ônibus; a verticalização se acentuou; a cidade já não funcionava direito, por falta de transporte adequado; com o custo de vida proibitivo, mais pessoas foram morar nas favelas “, lista o professor. “Até o clima ficou mais quente e mais seco. São Paulo deixou de ser a terra da garoa.”

Possível novo quilombo de Zumbi… Há quem diga que Caetano Veloso “previu” nessas palavras de Sampa (1978) a expressão que o movimento hip-hop, especialmente sua porção musical, viria a ter em São Paulo. A popularização do rap, quando este passa a obter espaço na mídia e a ser consumido pela classe média, “bota no mapa” uma realidade antes oculta nas margens – chacinas rotineiras, truculência policial e falta de perspectivas num cenário dominado pelas vielas tortuosas, pelos botecos e pelos córregos cinzentos. No começo o foco não era esse, explica o jornalista Spensy Pimentel, autor de O Livro Vermelho do Hip Hop, publicado na internet. O Centro era o referencial para os pioneiros do break e do canto falado improvisado, ainda sem carga política. Seus principais pontos de encontro eram o metrô São Bento, a Praça Roosevelt e a da República. “Só a partir do final dos anos 80 o gênero é ‘adotado’ pelos bailes nos bairros”, diz Pimentel. A Zona Sul, ele situa, é o primeiro marco geográfico dessa nova fase. Desponta nas rimas de Mano Brown e outros cronistas, que, mais adiante, de certa forma consagrariam bairros como Capão Redondo e Jardim Angela. Pimentel nota nas letras posteriores uma recorrência de estruturas que marcam a paisagem e o dia-a-dia em cada região: “Na Zona Sul, é muito forte a presença do Cemitério São Luiz. A Leste é permeada pelas Cohabs e a Oeste, pelo trem.” Outros caminhos trilhados pelo cancioneiro dos manos são a incorporação dos presídios e a consolidação da palavra (e identidade) periferia.

Dois dados, aliás, mostram bem a postura de vínculo permanente com a periferia: os “Salve” (saudação) dirigidos a dezenas de bairros e o orgulho de pertencer a determinada quebrada, que transparece na própria biografia dos artistas. “Quero que o lugar onde eu estou mude, e não eu me mudar dele”, confirma Rappin’ Hood, autor de Suburbano (“Todo dia às cinco da manhã/Começa tudo de novo/Todo dia às cinco da manhã/Desperta meu povo…”) e morador da Vila Arapuá, vizinha à favela de Heliópolis. “Meu filho vai crescer aqui, do mesmo jeito que eu cresci, vendo as mesmas coisas que eu vi.”

Este complexo urbano já foi cantado até em línguas estrangeiras. Um exemplo é Sao Paulo (sem til, claro), da banda cult Morcheeba. O trio descreveu sua estada aqui como “um pesadelo”. Depois da péssima repercussão das declarações, os ingleses garantiram no estúdio sua retratação diplomática, Sao Paulo (sem til, claro). E emendaram que, bem, “a cidade tem seu lado bom, representado nas pessoas”, em entrevista ao Estadao. Também na linha fazer média, o cantor e guitarrista Jair Oliveira vem com “elegância discreta de suas meninas” (para rebater o termo deselegância carimbado por Caetano) em Outra Beleza. Relevando-se a discreta forçação de barra, a letra é bonita.

Como se vê, opção musical não falta para quem quiser cantar um Parabéns pra Você diferente no dia 25. Escolha – ou componha – a sua!

2 Respostas to “Minhas reportagens”

  1. Baú de reportagens « Cheiro de Leoa Says:

    […] de caminhos para pesquisa nas áreas em questão. As que arquivei recentemente aqui ao lado, em Minhas reportagens, foram feitas para Agência Brasil, Carta Capital, Folha de S.Paulo e Revista dos Bancários. Ainda […]

  2. Sheila Says:

    Parabéns! Sua experiência é inspiradora e seus textos são ótimos exemplos do que um bom jornalista deve fazer.

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