Comentários, críticas & cia.

Cheiro Forte

Literatura boa a gente conhece pelo cheiro. Digo: logo pelo primeiro parágrafo. Impulso. Pelo ritmo. Linguagem a galope. Pelos golpes. Garras do autor. Em que terreno ele põe suas patas. E asas.

Pois este foi bem o caso do livro de Pedro Biondi. Que, um belo dia, veio parar na portaria do meu prédio. Um original ainda inédito, reunindo os contos deste seu Cheiro de Leoa. De cara, uma prosa inovadora. No primeiro olhar, a surpresa boa. Tamanha delicadeza! Chão adentro.

Lembro: entrei em contato com o Biondi assim que li suas histórias sonoras, como a que dá título ao volume e assim começa: “Esta manhã as zebras do meu quintal me pareceram outras”.

Ora essa! Zebras? O autor vem me falar em zebras? Leoas? Ursos piratiningas? Nuvens? Jabuticabeiras? Onde se esconde esse escritor-caçador que me diz de um paraíso magica e nostalgicamente feliz? Madrugal, etc. e tal? Por um triz?

Achei bem enxuta a unidade de sua ficção. O casulo do seu discurso. Obra que me levou, em pensamento, à do curitibano Wilson Bueno. E, até, às manhãs do Guimarães. Pois é. Algo que há tempo eu não via na prosa à vista. Uma voz bem peculiar, singular. E bem-vinda.

Biondi tem um jeito de traquejar com a língua. De ir direto na fonte. Eu gosto de autor como ele, onde a vida-narrativa vai sendo contada pelo que há de água. De som nas palavras. Este é o seu horizonte estonteante.

A saber: “Escavo e escuto o mar e me diluo em seu furioso e sereno cicatrizar. Uma mão puxa o menino, custo para descolar os olhos dos três tatuís que me fazem cócegas na palma […] Queria tanto dizer pra ele aproveitar a vida e tomar cuidado com ela…”. Trecho, esse, retirado do belo texto-testamento “Homem e Menino”.

Biondi, sim, não só fala de matas fechadas. Digamos: apenas amazônicas. Fala, ao que parece, idem, a partir de sua infância paulistana. Bucólica e melancólica. Lembranças cheias de imaginação. De um tempo em que o mundo tinha outro oxigênio. Eis a prova.

É só puxar pela respiração. Marcelino Freire – publicado na orelha do livro

 

laerte_leoaLaerte – 2008

 

Se me perco de amor por vós pela galhofa com que me rides, carniceira, te esconjuro.

Alta noite é que estás rindo de meus odores, vossos incensos, a dura ambígua carne com que corrompo em vós o apodrecido encanto. Não somos seres de caça; antes provamos do banquete alheio os restos dele, as suas sobras.

Rasgo-lhe a cara a dentadas; furas-me o olho, sinistra. Finco em vossos esquálidos os meus caninos, os dois, como uma forma cruciante de gancho, ou de anzol. Ganindo persigo o cio aziago e sob a grande noite, seus quietos, seus possíveis duendes, capaz me mijes.

Amamos um ao outro, mas com tal ódio que, focinho em riste, mais que rir, uivo quebrado em dois, e magro. Sobre mim tripudias o solene cacto de nossa vida vesga. Vergas?

Você tão hiena, ainda assim com cheiro de leoa. As hienas, as leoas, de Biondi.

Ensinaram-nos o amor feito ele fosse a chibata. De que fezes, hiena? De que cheiro, leoa, o vosso nojo? Wilson Bueno – publicado na quarta-capa do livro


Gostei muito da coletânea, principalmente dos contos mais ácidos, em que a prosa penetra a poesia, e vice-versa, provocando o abalo elétrico da proesia.

Tua narrativa delirante, com altas doses de humor negro, propõe que a linguagem literária, quase sempre conservadora, precisa ser sacudida de vez em quando. Eu gosto muito disso, dessa irreverência. Nelson de Oliveira

A ênfase na sonoridade, no ritmo e na criação de palavras e de jogos de sentido forma um universo de experimentação vivo e coeso. E, o que é melhor, o livro não tem nada de sisudo. Pedro escapa das armadilhas associadas a esse tipo de prosa com muita graça e jogo de cintura. Flávio Moura – publicado na “Revista da Folha” (Folha de S. Paulo) em 10/08/2008


Investigações sobre a linguagem

Pedro Biondi experimenta a narrativa como se passeasse por histórias fragmentadas, por pedaços de pensamentos de gentes quaisquer. Pesca aqui e ali o que parecem ser fluxos de pensamentos. Nem sempre há uma história clara e coesa. Ele cita o cartunista Laerte para explicar o porquê: “Ele fala sobre desenhar, mas pode se aplicar ao texto

escrito. O assunto, o motivo muitas vezes acaba puxando a forma”. É, portanto, em forma de mosaicos que está construído Cheiro de Leoa.

O primeiro livro de Biondi pode ser descrito como uma pequenina colcha de retalhos. É prosa em diversos estilos, um pouco de poesia e um conjunto de minúsculas brincadeiras com a linguagem. Primeiro os estilos. Crônica ou conto definem os textos mais longos. Em alguns Biondi experimenta coragem e linguagem, caso do texto que dá título ao livro. Em “Cheiro de leoa”, o leitor é jogado dentro de uma caminhonete de savana em companhia do personagem cuja sanidade não se sabe ao certo por onde anda. Desfilam bichos – zebras, na verdade, e umas poucas leoas – e pensamentos sobre situações sensoriais. Há menos história do que experiência nessas sete páginas, mas a coisa muda à medida que se avança na leitura.

“Esses cosmos, nossoscosmos” vai por outro caminho, mais organizado. Dois sujeitos saem do cinema e entabulam uma conversa um tanto sem sentido, mas uma conversa. Mais adiante, “Mau” retoma o livre fluxo de consciência que

caracteriza “Cheiro de leoa”. O autor parece caminhar pela rua como se fosse invisível e joga o leitor em situações rápidas e desconectadas. Ali, vê-se o quanto Guimarães Rosa foi importante para Biondi. “Na faculdade, era o que eu mais lia”, revela. “Ele teve grande influência na brincadeira com a linguagem porque faz uma arqueologia da língua portuguesa. Nos meus textos, essas brincadeiras com a linguagem, além de me divertir e, espero, ao leitor, acabam sendo espaço de retrato social e crítica, onde o texto vai mimetizar a maneira de falar de determinado personagem.” É mais ou menos o que faz Wilson Bueno na não-apresentação da contracapa. Já que linguagem aqui tem total relevância, melhor orquestrar com ela. É quase um miniconto o texto do curitibano. Uma resposta à leoa do título do livro.

Entre cada texto, Biondi intercalou pequenas frases, quase ditados. Ou microcontos. São como iscas para atiçar a curiosidade do leitor e fisgá-lo em direção ao próximo conto. O autor chama de tira-gostos. São também indícios de um desejo. Biondi anda querendo explorar o universo do miniconto. O formato de texto reduzido que perpassa Cheiro de Leoa, o autor admite, vem da fragmentação do mundo contemporâneo. “É a maneira como recebemos as informações”, explica. Ou então, no entendimento de Marcelino Freire na orelha do livro: “É só puxar pela respiração”.

Biondi, 31 anos, mora em Brasília há dois. Nasceu e cresceu em São Paulo, e obviamente estranhou a composição do Plano Piloto. O fato de ter nascido na maior metrópole da América do Sul não fez dele um autor especialmente marcado por temáticas urbanas, como boa parte de sua geração. “Sempre gostei de colocar o pé no chão”, brinca, lembrando dos finais de semana num sítio da família. Nos textos, a postura contemplativa se equilibra com reflexões sobre a cidade e suas agruras. Há espaço para zebras e leoas, mas também para diálogos entre traficantes em “Morro x asfalto” e até para um bem-humorado manifesto em favor dos sonhos. “Sonhadores do mundo, uni-vos (o Manifesto Sonhadorista)” não preenche uma página, mas convoca todos a “fazer xixi nas estruturas do Sistemex, levantando a perninha direita”.
Nahima Maciel – publicado no
Correio Braziliense em 06/02/2008

O livro do menino (ele nasceu em 76) é impecável. O cara tem uma escrita diferente, cheia de invencionices linguísticas, sintáticas, morfológicas e poraíaforas. Mas não é coisa de “querer ser diferente”. O cara sabe o que está fazendo e faz com mucha propriedade. Livro diferentaço, publicado pela ed. Limiar, com apresentação de Marcelino Freire. Às vezes uma prosa poética, às vezes um fluxo solto de palavras que vão se juntando numa narrativa que a gente não sabe como classificar. Muito bom. Ivana Arruda Leite – publicado no blog Doidivana em 26/04/2008


Leia o cheiro

Saiu o primeiro livro do Pedro.

Como assim, “do Pedro”? Que intimidade é essa?

Não tem intimidade, não. É que o Pedro foi meu aluno.

E escrevia bem desde sempre.

Do livro eu li fragmentos quando ainda não tinham forma de livro.

Não acompanhei o crescimento das crianças – nem do Pedro nem do livro.

Guardo o rosto, a voz e o jeito do autor e fragmentos do feto do livro nas retinas já cansadas, mas ainda abertas à aprendizagem de novas lentes.

Li de enfiada, numa primeira vez.

Na segunda, comendo alguns cacos. De vidro.

Há preciosidades como esta:

“VENDE-SE

Um grito”

Ou esta:

“Ai tadinho
Ai tadinho

O homem que comeu a lua

Virou vaga-lume no programa do Ratinho”

Os contos suspendem o fôlego – cuide-se, mano, depois não se recupera, não.

Fica suspenso mesmo. Os pés não voltam ao lugar. Nem precisam. Melhor flutuar.

Leia o conto que dá título ao livro. Depois deleite-se com o intertexto a “Balada do camelo vagabundo”. Entre, a casa não é sua, mas é receptiva.

Mais não digo, irmão, porque mais não há a dizer, exceto isto: compre o livro, desliga o BBB e vai ler.

Vai fazer bem pras suas lentes de ver o mundo…
Carlos Faraco – publicado no blog A Língua Lambe e Lixa em 10/02/2008

9 Respostas to “Comentários, críticas & cia.”

  1. Flávio Dieguez Says:

    eta beleza de blog sô, perfumoso que dói

    vou até botar um fedorzinho pra equilibrar, dos meus tempos de brasília:

    Os meus vizinhos não dormem

    Hemorragia ao café-da-manhã
    é mole?
    Oscilando conforme o golpe
    segundo o peso da mão

    meus vizinhos brasilienses
    cicatrizam, porém não dormem,
    estrelados olhos
    no prato claro vazio de pão.

  2. pedrobiondi Says:

    Cantou Don Dieguez, parceiro querido de sambas… Violão que tá fazendo falta nesta cidade cheia de setores.

  3. chico aguiar Says:

    Querido Pedroca

    Enfim um dia mais calminho, com tempo preu olhar seu blog. Simpático, também, na parte gráfica. E tem espaço pra crescer bem mais. Sugestão: coloque a música q vc letrou. Será q dá? E a foto do Meio do Mundo: é o Everest aquilo? Engraçado, acho q já vi em algum lugar.
    As críticas elogiosas são tb inteligentes e fazem jus à sua originalidade. Engraçado q ninguém fala da vocação poética dos seus epigramas. Boas cabeças e textos de Nahima e Marcelino (o W. Bueno eu já tinha lido)! Começo merecido com o pé direito.
    Abração do tio
    Chico

  4. pedrobiondi Says:

    Legal, grande Chico. Fico contente!

    Dá pra colocar a música, sim (acho uma boa idéia), mas precisamos providenciar uma gravação digital dela.

    Quanto à foto do Meio do Mundo, não sei o lugar… Encontrei num banco de imagens, não lembro se estava identificado. Falha nossa…

    Abração
    Pedro

  5. Leoa comentada em versos « Cheiro de Leoa Says:

    […] ler o que outros autores escreveram sobre Cheiro de Leoa, clique aqui. O olhar de Marcelino Freire, Wilson Bueno, Laerte, Ivana Arruda Leite, Nelson de Oliveira, Carlos […]

  6. Pedro Biondi Says:

    Oi Pedro,

    So estou escrevendo porque meu nome tambem eh Pedro Biondi e por coincidencia sou formado em jornalismo pela PUCC de Campinas. Hoje moro nos Estados Unidos e sou professor universitario na area de aviacao.
    Estou escrevendo soh por curiosidade. Eu fiz um google search no meu nome e pareceu voce. Fiquei curioso.

    • pedrobiondi Says:

      Oi, Pedro,

      é curioso mesmo, isso de ter homônimos. Ainda mais com a mesma formação!

      Num antigo trabalho, um leitor viu meu nome e escreveu perguntando se eu tinha estudado na Puccamp… Vou lhe encaminhar o contato dele por e-mail. Abraço.

  7. Rodrigo Hornhardt Says:

    Pedrinho, não sabia que vc tinha escrito um livro… fiquei curioso, onde compro?

    abraço

    Rodrigo

  8. pedrobiondi Says:

    Entonces, Rodrigo: você ainda mora em Sampa, né? Até meu último contato com as principais livrarias para acompanhar a distribuição, o livro só estava disponível na Cultura (no catálogo).

    Também é possível comprá-lo via web — Estante Virtual, Conecta ou Submarino, entre outros caminhos, assim como pela página da editora (Limiar).

    Abraços
    Pedro

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