Archive for the ‘Literatura’ Category

Rio à vista

25/09/2013

Nesta semana começo a parte central de um projeto em que estarei mergulhado até janeiro. É a pesquisa in loco para o livro de ficção que tenho sete meses para produzir – contando desde fim de junho.

O principal da história se passa no contexto do garimpo de diamante no oeste goiano. Região de Araguaia e cerrado ainda exuberantes, e na iminência de prováveis transformações, com a expansão da soja e da cana e a construção de hidrelétricas.

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O projeto é apoiado por uma bolsa de criação literária da Biblioteca Nacional e da Funarte, para a qual fui selecionado em edital.

Ah, sim: mais fotos da região aqui! Em breve, as desta ida.

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De um banco defronte ao Fórum Silvio Romero (Paraty Blues)

04/02/2011

As andorinhas intrépidas
costuram pilotando o vento por entre os chuviscos

Um senhor recém-saído de algum lugar experimenta a amurada do cais
Enquanto alguém inquire o pescador sobre o que está dando

Dois cachorros camaradas
De temperamento distinto
Se revezam à frente de uma dona
Que não é deles

Dois jovens italianos conferem um mapa
E lamentam uma bússola;
Uma senhora indecisa leva o cinza
E por bem o arco-íris;
Vez por outra um cigarro
Põe o nariz pra fora das portas azuis

Três adolescentes de França passam se beliscando
Sem se dar conta da velha onça

O poema nasceu de idas anteriores. Desta vez, a cidade mereceu as fotos
que podem ser acessadas com um clique na imagem abaixo.

Foto: Pedro Biondi

Cantor de barzinho

12/12/2010

Não vem tomando o remédio de memória, mas se vira nos 30. Diz que Caetano reviu e atualizou o elenco de homens-rima de “Um índio”:

Impávido que nem painho ACM
Estilão no bigode feito Dalí
Com o aval do comandante Enzo Peri
O axé da Carla Perez e do Xandy

Isso na quarta.
Pareceu fazer sentido.
Na quinta, era outra a lista de Caê pela boca de seu intérprete não tão famoso:

Intrépido e lépido qual Didi
Faminta e amigona igual Magali
Santo no céu: Dumont ou Exupéry
Profissional e doce como Sandy

Verdade ou adaptação para sobrevivência, quem saberá? Noves fora, me parece que o autor efetivamente faria algumas das substituições.

Serapilheira, turfa (manifesto (e) silencioso)

17/07/2010

Pras cucuias o que disse a moça dura no flash de há 3 minutos
O que compraram as famílias do Natal mais bárbaro dos últimos x anos
O que limparam, inovaram, superaram, comemoram
Que se frite

A América pros americanos
Eles que são brancos que se explodam
Ou da cor que fossem
Nós todos

Que tudo redemunhe numa doce ascendente
E ao solo torne em helicóptera semente

E se amontoe, decante e decomponha em duas lindas palavras –

Serapilheira, turfa

Eu quero mais erosão, na voz de Lenine,
Menos granito
Bonito, também voto, é a ruína
Testemunha de acusação da transmutação
Dos arroubos dos homens de projetos
Em crônica faraônica
Em desvario decifrado
Em furto de futuro
E por que não era na época
Ou ninguém calou o profeta?

O tempo é o melhor tradutor
De cada nova moda do rei, uma a uma

Que tudo torne em húmus, esterco, insumo,
Minhas duas orgânicas palavras, serapilheira, turfa

Não é do pó ao pó: é do adubo ao adubo

Esse eterno Prometeu
E eu não prometi nada
Essa eterna Babel
E eu não vou carregar
NO PASARÁ
Esse complexo de puro-sangue
Concurso de sísifos
Esse incessante maquinar (d)o mundo

As marias-sem-vergonha que obram quietinhas nas nesgas
Do, sacro seja, Museu de Paranaguá
As epífitas nas brechas e nos sobres dos blocos de pedra
Das Missões dos sete povos
Os pombos que humanizam o Coliseu
O verde mormaço a derreter com arregaçadora determinação
O que foi o delírio amazônico de um Ford

[Vem mesmo feito rio a alegoria do ano amazônico
Que inunda, arrasta, arrasa, preda, defeca, empilha, multiplica e reinventa em mil cores
Sempre as mesmas
E assim, findos os noves, zera]

Tudo o que sentimos, criamos, construímos, sofremos, arrotamos ser,
Que se dane em folha, sumo, camada
Se submeta, humílimo, à lenta festa do chão
Porque, no fundo, é assim que é
E que um dia seja e ponto

Por isso me abraço
Nelas que me trazem
Serapilheira, turfa
Cheiro de gosto de tato
De rio, de chão, de fogueira, de cinza, de barro, de negação
Me deito
Brilho de água, pureza araguaiana, tapete de gravetos, ocaso rasgado
Escuto
Cascalho, caule, cascudo, garça, boi
Revivo como posso

No chão, o que de solo
No céu, algaravia
Posso escrever silêncio? E cor? E vida?

Gás, ponteiro, ponto, posto, prato
Hora redonda, hora-fração, escova, movimento em massa
Migração, corrida, faqueiro universal, calendário de festejos
Carro-forte, embornal, apetite, debate, sede da administração, juramento
Língua, divisa, deus-lhe-pague, partido, sorriso, coração figurado
Apresentação de gala, carta magna
Descendência
Tudo isso pra onde, caralho, esse dicionário, pra onde?

O antigo não passa de retrato amarelecido do novo
O que é bonito? O cantor pergunta, eu repito

E eu me apaixonei por essas palavras opacas e luzidias, minha ladainha, meu emplastro-antídoto pra tudo
E eterno retorno:

Serapilheira! Turfa!

Reinaldo (um conto sobre futebol e algo mais)

25/06/2010

Driblar? Não é bem a palavra. Ele dá uns cortes que fazem o cara procurar a bola nas placas, pedala como quem caça um coelho na cartola, se movimenta em campo como se visse tudo do alto, de helicóptero, ou desenhado numa lousa. Aplica um lençol que é quase uma cortesia, de tão plástico. Tão plástico que o cara nem fica com raiva, sabe? Dá um sorriso humilhado cordial, de “vocês viram o que eu vi?”, e não seria de estranhar se se ajoelhasse para lustrar a chuteira dele. Mas se o cara é desleal ele rosna com os pregos da sola, nunca vi ninguém dividir com tanto sangue, com os dentes rilhados, a coxa triangular quase estourando de dentro para fora, pintura gritando para vazar das linhas do desenho. Não é corpulento mas, bom brasileiro, é capaz de derrubar zagueiro com puxão de Dener, extrai que nem carrapato mão que lhe gruda na camisa, se preciso arranca cabelo ou arranha rosto no toma-lá do escanteio. A gente quase esquece o chutador que vive ali dentro: trivela, bicuda, folha-seca, acorda-coruja, peito-de-pé, colocadinha nana-nenê, chapa simples pra empurrar pra dentro, cobertura. Calcanhar, se necessário – ou se maximamente desnecessário. E carrinho pra não ensejar capricho da torcida, que de tempo em tempo tem que arranjar um boneco de judas, um bode pra expiar. Único do time que eu não vi chorar quando a gente foi campeão da segundona, seis anos depois de o clube ter caído, quatro depois de a ente ter entrado e um depois de a gente ter feito uma temporada de arrebentar e perdido a final com gol anulado e pênalti inexistente, sem falar nos vários resultados que iam coincidindo em favor do adversário. Único do time que não desceu pra mulherada comprada do vestiário. Puta que pariu, o que o bicho jogou nesses dois anos não tá no gibi. Fez gol aos 2, aos 45, aos 49. Levou tesoura criminosa pra gente ganhar uma expulsão. Fez gol com drible-da-vaca, gol de barriga e gol de raiva, afundando o goleiro. Perdeu pênalti e fez questão de bater e converter o seguinte, no mesmo canto. Perdeu o pai e parece que jogou com mais garra, parecia até mais mágoa do que homenagem. Aliás, do pouco que ele fala – sempre daquele jeito caladão –, disse que o velho nunca apoiou: última coisa que eu queria era te ver correndo atrás de uma bola no meio de um monte de marmanjo. Antipático, bastante. Parece que comigo ainda um pouco mais – o pai. Ele, de sorriso nublado, de não dar intimidade pra ninguém – principalmente depois que uns chimpanzés começaram com brincadeirinha pra cima da gente –, mas gente boa incontestável. Tomamos umas tubaínas depois que voei na cara de um deles. Três jogos na primeira divisão e veio sujeito managear. Possibilidade de pular de trezentos para trinta mil. Ele sabia que fechar na hora era bobagem, fintou, tenho certeza de que vai fechar pelo dobro. Me contou como quem vê chegando o trem do alívio, me revelou um apelido de bicho miúdo e me deu um beijo de mulher – de mulher que tirou das costas as toneladas de um segredo.

Foi publicado na revista Ciência e Cultura, em 2006.
Eu o escrevi para um concurso do
Estadão, às vésperas
da copa passada. Meu texto não se classificou entre
os dez finalistas daquele torneio, mas gosto dele.

Lançamento na quinta, 20

16/05/2010

É nesta semana o lançamento do nosso livro coletivo em homenagem ao cinquentenário da capital federal, 50 Anos em Seis – Brasília, Prosa e Poesia.

André Giusti, Fernanda Barreto, José Rezende Jr., Liziane Guazina, Nicolas Behr e eu bateremos um papo com os leitores no T-Bone.

Esta linda capa é do Bruno Schürmann, sobre foto de Patrick Grosner.

Detalhes no blogue do projeto: http://brasilia50anosem6.wordpress.com/

Brasília 24h

21/04/2010

05:59
Uma gangue de periquitos celebra minha insônia
Rasgando paina diante do janelão
(Como hão de fazer um dia com as almofadas
meus filhos e o incorrigível schnauzer Tempestade)

06:03
Brasília é areia que escorre de uma garrafinha
Ou pra dentro dela?

06:46
O sol balão escapa para sobre os ministérios
Que tentavam encaixotá-lo

07:00
Uma paineira ganha, justo quando você piscou, a peruca rosa para o tronco de espinhos:
Mas março mal começou!

18:36
O fotógrafo voa para o memorial
E consegue botar a lua na mão de JK

13h50
Um pombo pé-de-pirata
Joga pro estômago o fast-trash
Num Giraffas qualquer

11:55
Foi registrado o avistamento de um pedestre –
Vivo!
Viva!
Ao vivo!

18:50
Um fora-bush se maldivisa
No viaduto que a noite vai apagando

23:15
Figurinha parda carimbada
Beberibica o on-the-rocks
Cisca o pistache
E discute in-private a próxima
Invasão de luxo

11:00
POP!
IPÊ
BRANCO
PIPOCA

17:35
São pedestres, não há dúvida
E devoram uma Pajerinho em 20 s
(Fosse um Ka, pronto, bastavam 13)

12:00
Sol
E só:
Carne-de-sol

14:35
O mendigo, desperto:
Estarei eu no setor certo?

15h45
O PM comendo da mão de um dos quatro evangelistas de Ceschiatti
E eu perco a foto

18:01
Meu fusca segue carimbando o asfalto
E enviando manifestações de apreço ao Sr. Diretor
Como escreveu Nicolas Behr
A quem dedico este poema

08:40
Pulo pra dentro da zebrinha
Que, de vermelha
Quadrada
Sem listra
De zebrinha não tem nada

10:15
Arru-da-na-Pa-pu-da!
Pê-Ó-no-xi-lin-dró!

10:16
Capacetes
Cassetetes
Cascos

14h30
Taças tinindo
Talheres pra todos guardanapos fornos se abrindo
É domingo
E não há sinuca aberta
Se você não tem família aqui
Sei lá, negão

Aí tá sinucado

08:41
E sei que hoje treze me dirão
A seca neste ano vai ser braba
No ano passado meu nariz sangrou
Comprei um borrifador
Uso toalha molhada

03:17
Já todos dormem
Exceto Junior, filho do poder, que
Cabeça tinindo de coca
Pratica o esporte do rachão na ponte milionária

03:18
Exceto o pichador de monumentos
Que desde já assina
O Pichador de Monumentos

03:18
Exceto Galdino
Cuja alma arde insone
Enquanto a Justiça ronca

03:20
Exceto o deputado com o pescoço
Encaixado na guilhotina

15:55
Juraria ter visto um cachorro
Juro
Poderia

17:45
A Esplanada ganha paletas
Impressionistas
Naïfs
Lisérgicas
Mas há os alérgicos

 


Este poema está no livro sobre a cidade
que vamos lançar em maio
(eu, André Giusti, Fernanda Barreto,
José Rezende Jr., Liziane Guazina e Nicolas Behr,
com
design de Bruno Schürmann).
Mais informações aqui!

Seis autores e um destino

11/03/2010

Eu e cinco autores da pesada estamos terminando de montar um livro para os 50 anos de Brasília. Acho que vai ficar bem interessante.

No time, André Giusti, Fernanda Barreto, José Rezende Jr., Liziane Guazina e Nicolas Behr. A parte visual é pilotada pelo Bruno Schürmann. Todos radicados na capital federal, cada um nascido num canto.

O André explica bem o projeto aqui. Lançamento em fim de abril ou começo de maio. Em breve, mais info pra turma da leoa.

Leoa comentada em versos

15/06/2009

Estes tempos, o livro que dá nome a esta página recebeu elogio que me deixou alegre e orgulhoso. Foi do jornalista e poeta (e amigo) Ricardo Jacomo, do Rio. Ele é autor de O Homem Voador, lançado pela Ibis Libris em 2005.

Já é um gosto quando um escrito nosso recebe uma crítica favorável. Quando o resultado é um diálogo em verso, cheio de musicalidade como o que reproduzo logo abaixo, a sensação é de troca de passes, 1-2 dos bons, calcanhar e tudo, rumo ao gol…

O poema-comentário do Jacomo:

Cá em casa há tempos cheirava a leoa
Desculpas cotidianas mil coisas blábláblá infértil relutavam a me deixar cafungá-la
Li Paulinho no livro e lembrei que meu tempo é outro, e ele às vezes ignora os outros
Mas quando fico pronto, de bate-pronto me apronto na arquibancada pra reconhecer o craque
Vendo a desenvoltura dele parece fácil, pareço fóssil
Quinze do segundo tempo, o jogo já tá ganho, quero saborear, oleolelear retardando o apito
Biondizo o poema e atexto, texto, texto, texto…
Sou solidário e admiro o amigo, elejo, cobro e agradeço
Faça outros, criaste apreço.

Aproveito e publico aqui outro poema recente dele – igualmente pleno de ritmo e imagens saborosas. Este, sobre o nosso ofício/bênção/maldição.

Salve, palavra!

Jogue o bote, poesia salva-vida
Respire pertinho da minha boca
Dê o crédito para quem se endivida
Ceda amor ao animal que se entoca

Cante o mantra, meditação-poema
Solte a âncora, palavra libertadora
Desamedronte se o medo for o tema
Mande amor e o burocrata perde a hora

Toque o alarme, incendiária letra
Clame à força dos seres pirofágicos
Faça a festa, que eu entro de penetra
Traga amor pros bichos melodramáticos

Dance o rito, verso do encantamento
Conte a fábula, deslumbre a platéia
Transo em transe e assim me contento
Doe amor que a bússola desnorteia

Mexa a massa, verbo-batedeira
Bata o bolo com a força de um bardo
Peça arrego, nega, mesmo que não queira
Mire o amor que eu lhe enveneno o dardo

Beba o ébrio, dicionário do deslumbre
Busque sol, fuja da névoa que avança
Seja assim, moça, tudo. E relembre:
Siga o amor que eu prometo recompensa

Para ler o que outros autores escreveram sobre Cheiro de Leoa, clique aqui. O olhar de Marcelino Freire, Wilson Bueno, Laerte, Ivana Arruda Leite, Nelson de Oliveira, Carlos Eduardo Faraco, Flávio Moura, Nahima Maciel, Chico Aguiar e Flávio Dieguez.

Sabadão com boa literatura

15/05/2009

Neste sábado, José Rezende Jr. lança em Brasília Eu Perguntei pro Velho se Ele Queria Morrer (e Outras Estórias de Amor).

É o segundo livro do Rezende, contista (e cronista, e jornalista…) de primeira. O de estreia, A Mulher Gorila e Outros Demônios, está disponível para baixar no site dele. Desse, adoro especialmente “Os bichos” e “Não passarão”.

O lançório tá marcado pras 20h, no Café com Letras (203 Sul).


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