Textos

MAU

Sujeito mau, rapaz.

Mau…

Mau reto – mau noventa graus. Quarenta graus de maldade. Nove na escala hitler. Sangue de doninha! Torcer o pescoço da galinha só pra ver estrebuchar aérea, feito foguete que atravessava o corredor e dava com a parede e com o chão. Descalço, nesses domingos era mau útil. Onça pintada, vinho tinto; onça parda, vinho branco. A da preta também vai com tinto, ensinou pra ninhada, porque ela é só uma pintada que o breu montou por cima. Deixou um escapar vivo só pro pobre engordar medo. Encontrava na rua, Bu!, o outro se cagava. Virou zumbi em mangas de olheira, o branco amarelo da lua grudou, desconfiava do outro lado de esquinas, árvores e prateleiras de supermercado. Virou um fulano, um menos. Trezentos e sessenta graus de maldade, para que até onde a vista alcance. Mau difuso, parafernal, indeciso de qual maldeza. Ali com o Inominável deve dar coluna do meio. Pai quero ser parasito. Olhos cinzentos e coração com eles rimando. Predileção é moça-donzela, dizendo-lhes as todas flores desperta-as iaras, supliquem como suplicarem a desonra só bota a cabecinha, a mais recente erra por aí despida de branco rezando em língua noturna bolinando o desvario noiva da madrugada. Durissus, terrificus, horrendus – qualificavam-no, teremendo, os tupis de nossa costa. O padre romanizou – anhangueté, panemeté, depadredefílidespíritissántiááámém. Siris. Tão bom vê-los na panela, morrendo vivos. Dar nome a todos antes de riscar o fogo. Chupt com as casquinhas e patinhas dos cozidos na frente dos candidatos no balde, os olhos crustáceos arregalados em seus pedúnculos já adivinhando macabra dança na janta. Escolhe uns dessortudos pra sobreviver e a estes dá de volta o mar, avisados de recaptura em incerta data garantida. No reencontro, salmos sobre a gula, que você se vendeu por uma cara de sardinha, o arrependimento artrópodo de nada vai sensibilizar o justiceiro: a natureza é sempre alguma justiça, é justiças diversas, de praxe as mais surdas ou mais curtas: balde e panela de novo, pra mim não tem música que as patas e pinças aprendendo as paredes de alumínio. Mau e repassando a tradição pros seus juniores. Vírus. Talking bout a baaaaad guy, if you know what i mean – a homenagem enunciada na voz de lobo velho do bluesman, ai, vargas, só você mesmo pra inventar de contratar o bigode torto pra animar o casamento, as crianças apanharam na letra pela primeira vez a concreta e vaga maldade, os ouvidos grudando no que querem e não querem ouvir, os pais apertam o uísque e adivinham longa noite. Há quem garanta que já vivia em Cananéia, branco feito um ovo e os cabelos vermelhos estufando e encolhendo conforme subia as picadas, branco a ponto de didático, pois se podia estudar a maldade ali interna, no trato todo. A lenda completa: com o sol inclemente destas terras brasilis, virava uma enorme lagosta, a mais magra, a mais cruel e mais silvestre. Feitor não tinha igual pra cima dos gentios e, depois, das peças negras. O bruto. Mau seco e límpido, mau vulto recortado contra um fundo-sol de África, mortes estratégicas por entre a poeira, em seco som. Mau amazônico: como o desconhecido, que domina a gente por dentro, lodos que borbulham equadores, barulhos abafados pela água e pela umidade, a malária pode já estar, plantas que de repente tipo vivem, o silêncio puxa a gente pra dentro e é uma vertigem, morte pressuposta e atrasada por entre os neotrópicos. Mau com sal. Com torresmo. Com limão. Completo – e a branquinha pra acompanhar. Sabe o crocodilo-do-nilo?, coitado. De roupa cáqui, lutou o bicho dentro d’água, amarrou a boca do bicho e brincou de upa-upa no bicho – diante do gavial, do aligátor e do jacaré-de-papo-amarelo. Pra piorar, as câmeras pegaram. Já mais velho, as pernas de cegonha, pai quando crescer quero ser candiru. Quando criança, amarrar lata na cauda do gato. Ih, menina, isso só se não era São João. Com a data, algum bum no medo enrugado do chanim. Sujeito mau tá pra nascer. Mau com gosto. Huuuum… as velhinhas. Não me fale delas. Não posso com carne seca, o médico. Os escoteiros querem perigo? Feito técnico de futebol, noites de estudo, desenhando com giz esqueminhas de como o futuro vai jogar. Touché: não resistem a uma casa abandonada de madeira que range. O susto não é ruim e bom? A alma do suspense não é o bom-ruim? O princípio joão e maria, infalível e juridicamente incontestável: Tava na minha, meritíssimo, só dou o que pedem. E quem apronta, queque acontece? ’os mais veeeelho, menino. Mau com trema, retinto. E os atavismos dagobés dançando nele, dianhos. Amigos, amigos. Pedi a palavra em cada aniversário. Saboreei o murmurinho e o silêncio, com discurso brindei a como eram perfeitos e como os admirava e emoldurei com como diante deles me encolhia de minha vileza e pequenez. Sua generosidade e coragem. Estradas, tijolinhos, flores na sacada, homens largos, mulheres de altos saltos: crianças encardidas de choro, como as que se borram na própria festa de dez anos, esmilingüidas. Ah, nem preciso ver, que é batata, rendidos ao azulejo, à louça e à límpida poça, o que resta de honrado puxando o vomito. O desmoronar. O desertar. O prometer-se não olhar pro âmago nunca mais nessa vida, nunca mais. Pegou as mães da turma toda, o cabelinho sempre repartido pela vó. Ganhou muito primeiro pedaço de bolo e tabefes alguns. Não bastasse roubar namoradas, rouba os namorados. Mas não tem que ser mesmo muintorruim pra fazer quem é bondoso se sentir ruim? Ruim de nascença, ele. Sabe mau ruim? “Ele” não: um coiso, um isso. E isso lá nasceu? Foi é tramado, urdido. Veio foi de pesadelo, bate na madeira. E os irmãos tão bons, a mãe uma santa. Diz que tem perna de pato e um rabão de leopardo, que cobreia e quase fala quando ele vai aprontar ruindade. Ah! Então tá explicado por que nunca vi ele de bermuda… Não toque nessa geladeira, que não tem nada que te interesse. Parece que não se molha de chuva. Morasse no interior e a molecada passava de bicicleta jogava merda de tísico na porta dele. Como mora num subúrbio com jeito de interior, isso acontece mesmo. Mas se vinga matando a dentadas os cachorros da vizinhança. E urina tudo que é árvore e pneu de carro, um mijo que não tem cânfora pra tirar. Por que nóis num justiça? Guardemo as criança e as mulher, juntemo pau, pedra, chicote, mai nóis num tinha prova… Ademais, é um cristão como qualquer um de nós, só Deus é que é nosso juiz, de quem é a primeira pedra, o senhor é santo, essa figura que tá aí lendo aí fora é santa? Uma maldade feminina, não essa nossa maldade de braço peludo, essa nossa maldade pinguça, essa nossa maldade territorial, essa nossa maldade que é mais bruteza, ingenuidade, sangue estúpido, esta nossa maldade canina, precisa ver. Maldade que desliza a mão, que troca os martínis, que geme ãin, que veste zíper nas costas, que instiga e deixa a maldade da gente aflorar, tomar conta, se denunciar. Maldade-cetim… Mau classudo, clássico, corleone. O Mal no terno medido riscado. Mas fuleiro, viu. Diz que rouba dinheiro de cego, nem liga que dá azar. E covardia: imunidade, ou pinote. Chacal, trombadinha. Um lambari mau.

[Sem tirar os olhos da cebola] Ninguém é perfeito, e ver mesmo nunca vi. Só sei que é bom pra mim e outro nunca me teve.

Comeu todo o refogado e parece um imenso anjinho de sofá, nhonho da vida, grunhindo corpórea saciedade, o bom rinoceronte.

O investigador apóia os polegares nos bolsos e espera com o beiço a intuição bater –

as luzes da sirene confundem a tarde, como num filme americano.

UBERABA 15 MINUTOS

No banheiro encontrou o tiro já encaixado, azulejo e tudo. A testa era sua. O frio era seu, terceiro olho. Espelho rachado com terror. A flor do buraco como se tudo escorresse de dentro para fora, tudo o que ele fôra e seria, num Big Bang particular de irrepetíveis luzes. Em penumbra, tentasse adivinhar os corpos de mulher no morno dali. Corpos que rareavam, apesar de muitas. O escuro. Mulheres que arareavam sobre o gordo que roncava. O Cometa sempre assim meio promíscuo, anfíbio, inspiros e expiros sem dono. Vagas poltronas. Num berro sem testemunha, achou rumo do terreno baldio, enquanto os suvenirs faziam dominó em seu encalço, chifres/chicles/santas/havaianas/doces/lobos/caras/couros/chaveiros/
isqueiros/morteiros/padres/catedrais/pães de açúcar/tiros de sal/ovos/cristais/chapéus/bancas/trocos/motoristas/mortos e o mico do posto que arrebentou a corrente e veio arreganhado pra cima. Atleta de coliseu, esquálido gladiador, feijão de terra rachada, marido da precariedade, músculo do ódio, marionete sem devir, aposta de uma nação, o filho da puta, faca de lamber garganta, irara no galinheiro do caos, orgulho do padrasto, herói varado de cãibras, fome que preenche tudo, pingo no infinito branco, fruto do sistema, erro de cálculo, vivente que não desistiria de ser, saudade da mãe e das tias, pular as bocas-de-lobo bocas-de-sapo bocas-de-leão e a grama de fogo. Sem parar, um lugar pra nunca mais ter nome.

450 ANOS EM 5

Como um urso piratininga, eu costumava procurar as tabaranas de prata que estertoravam nos teus baixios – relva boa de várzea, terra que só conhecia o gentio e esses bandeirantes filhos da mesma bisca. Em resposta, um gemido lânguido de alguém cujos rios sabiam tão bem as curvas, só elas. Depois veio aliança com teu pai, Tibiriçá palmeirense, e meus domingos ficaram comprometidos por uma eternidade que não durou para sempre: ouvir o capão, cada vez mais gordo, atirando impropérios, como se latas amassadas, aos cabeças-de-bagre de camisa verde que encontravam tudo, menos o caminho de volta pro mar – pro gol. Ah, vivemos tudo rápido demais, como essas quaresmeiras que arfam em flores duas vezes por ano: freiras no passo errado. Quase só lembro do começo e deste confuso purgatório, em que se revezam as faixas de oportunidades e no entanto o que mais se vê é gente fodida. Tudo o mais virou margem do rio, é isso. E mesmo o rio já não é bom. Outro dia, porém, puxei pela memória. Nós dois espelhados na água, na tua água, ao lado de uma ponte que mudava tudo: era concreta e tão absolutamente metafórica… Era uma recriação das picadas que a tropa de mulas roçava, ao trazer o charque, o sal, o pano. Você mudou muito, me arrisco a dizer que você sempre foi a mudança, vivia com essa mania de “crescer” – como se a gente valesse mais por ter o nome escrito em alguma placa -, e nessa até se esquecia de viver. Eu continuei o de sempre. Gostava era da moça da roça, de ver tua cara fingindo vergonha enquanto eu livrava os nós de teu vestido, de ouvir o sonzinho do pano dele ao cair no chão. É sempre assim: vai ficando mais claro, os episódios chegando aos poucos, dezoito quadros em sépia, e de repente me dou conta da água sobredoce e pagã que me arranha a garganta, em seguida, do bando de bugios sem planos que jogam dominó no andar de baixo e, por fim, de uma melodia conhecida respondendo a cordas de aço. O meio do caminho some novamente num silêncio amassado, um fosso cinzento que tem a minha cara. Desta janela, me resta ver a variedade de cores e trinados gangorreando nestas duas jabuticabeiras que alguém pregou nas nuvens. Quando o menino voltar, mando me comprar uma espingarda.

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