Diário de um náufrago

Sabe aquela redação que todo mundo escreveu na 7ª série, em que a primeira ou terceira pessoa acorda e depara com o bairro, a cidade, ou mesmo o planeta absolutamente deserto? (Ah, sim: Raul pôs isso em letra bem depois da 7ª série – “O Dia em que a Terra Parou” –, com direito ao indefectível desfecho em que o protagonista acorda.) Foi bem essa a sensação de circular neste 12 de julho em Bras-Ilha, ao voltar de férias.

Na cidade, que normalmente já não tem pedestres, cachorros (exceto poodles) e afins, restava não mais que meia dúzia de carros circulando. Nem todos com alguém ao volante, quer me parecer. E outra meia dúzia de anus e pássaros-pretos pastando.

Era como se todo mundo tivesse marcado alguma coisa da qual eu ficaria de fora – algum possível motivo para festa-surpresa? – ou corrido para ver um meteoro que caiu e só eu não sabia. Ou como quando a gente tem 10 anos e esquece de tirar o despertador do horário de verão, ou perde o ônibus do passeio, ou toca a campainha da casa do bailinho e descobre que está um dia adiantado.

Na ausência de nova morte de Michael ou equivalente tragédia, nada parece explicar as 24 horas de silêncio desse domingo. Na falta de um comunicado oficial, correr os olhos pelas agências de notícias, para o caso de algo muito extraordinário ter passado batido. Necas, a menos que a população inteira esteja numa manifestação de apoio aos uigures em frente do Itamaraty.

Hipóteses e analogias na cabeça, me dirijo à UnB – terreno de 395 hectares de cerrado que uso como quintal e onde algumas pessoas estudam – em busca de corujinhas-buraqueiras para fotografar, com o receio de que tenham migrado para a Flórida ou para a Patagônia. Sou abordado por dois caras com o rosto coberto de barba e uma mochila com colchonete enrolado nas costas, únicas criaturas sem asas, cauda ou rodas num raio de quilômetros. Me perguntam sobre um tal de congresso da UNE.

Coitados – penso. Decerto no cartaz constava “julho de 2010”, ou “Curitiba”, ou “Manaus”, e eles leram com pressa.

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Uma resposta to “Diário de um náufrago”

  1. cacalo Says:

    bem-vindo!

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