Pegue/Multiplique/Imagine

Pegue os 02 guardanapos que a aeromoça oferece com o misto frio
que nem suja a boca

Mais 01 que vem com o copo d’água

E o próprio 01 copo descartável que vem com 200 ml de água
e é usado 01 vez

Os 10 copinhos descartáveis diários servidos com cafezinho

Vezes 02, porque o cafezinho é muito quente

E os 08 para tomar 2l de água no trabalho

Os 05 papéis-toalha que o cara no banheiro usa para enxugar
02 mãos pouco molhadas

Os 300g de picanha no almoço por quilo

Os 02 canhotos de papel para cada compra de R$ 5,00
via débito ou crédito a juro zero

As 02 toalhas que o hotel troca por dia para garantir seu conforto

A ½ dúzia de sachês de maionese, ketchup e mostarda que o fast-food oferece em cortesia sem perguntar e vão para o lixo

Os 02 saquinhos de plástico para cada garrafa ou conjunto de frutas
no supermercado

Multiplique por 07

E/ou por 24

E por milhares

Ou milhões

Ou bilhões

Imagine que essas coisas fossem feitas de petróleo

E na extração e no transporte de vez em quando rolasse assim
um vazamento

E que o óleo derramado – upa! – fosse parar nos mares e nas praias

Ou que essas coisas ocupassem terra para o plantio ou a criação
enquanto vivas

E essas terras, sei lá, espremessem nações indígenas em ilhas
secas

Ou empurrassem a fronteira agrícola Amazônia adentro

Que essas coisas gastassem muito mais água para ficar prontas
do que comportam

Água, ahn, para resfriamento no fabrico ou comprometida pelos resíduos

E que a produção lançasse poluentes ao ar

Tipo dióxido de carbono

Que, sei lá, cientistas podem achar que agravam o efeito estufa

E que, de repente, concluíssem que isso elevaria o aquecimento global

E já pensou se o lixo acumulado virasse um problema para o planeta?
Se essas coisas demorassem anos, décadas, séculos ou
– ave, santíssima! –
milênios para se decompor, e se amontoassem por aí?
Se mesmo a reciclagem não fosse um processo 100% limpo
e isento de emissões de gases?

2009_01_13_copos

Que loucura, não?

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16 Respostas to “Pegue/Multiplique/Imagine”

  1. cacalo Says:

    era tão mais barato e saudável quando tudo era de vidro, não? era só lavar e reutilizar. e era mais bonito: lembra das garrafas de leite? a gente sabia que era leite que tinha nelas; nas embalagens tetrapak, vai qualquer coisa, até leite às vezes… e a garrafa de coca-cola, com seu design ímpar, um corpo de mulher? hoje, pet, é um ovni. o problema é que ninguém faz as contas que você fez, tudo é progresso, muderno. nõa é saudosismo, é que não são todas as mudanças que são para melhor.

  2. Amanda Says:

    Pensar em meio ambiente é altamente subversivo…! E assustador!!

  3. eloise Says:

    vero, pedrim, gostei das contas. sabe, fiz um curso de gerenciamento ambiental e por mais que eu quisesse acreditar em soluções bonitas e assépticas como aterro sanitário, coleta seletiva e reciclagem, sempre desconfiei que se colocarmos tudo na ponta do lápis descobriremos que elas são só histórias da carochinha. mitos confortáveis pra apaziguar as consciências e continuar consumindo coca-cola, leite de caixinha, fralda descartável e cerveja em lata por mais algum tempo, até perceber que a solução engenhosa é só um paliativo.
    daí talvez a gente decida recuar, consumir menos, poluir menos, cuidar da água, das nascentes. ou então continuar acreditando no pogresso (po-gres-so) como solução, inventando um desmaterializador nuclear do lixo que deixará só um pouquinho de resíduo radioativo no ambiente…

  4. eloise Says:

    três batidinhas na madeira…

  5. pedrobiondi Says:

    Cacalo, Amanda e amigos da Rede Globo… Multipliquemos por milhões as batidinhas na madeira sugeridas pela Elô. Não tem gente querendo buscar água na Lua?

    Um pouco nós podemos fazer, mas os governos adotarem políticas de redução do consumo parece uma possibilidade muito remota, um contra-senso no sistema capitalista, né? Contrariar empresários, que poderão demitir empregados e deixar de financiar campanhas etc. etc.

    A impressão é que só fatos muito extremos conseguem forçar algum recuo. Enquanto isso, tá o caminhão na ladeira, o motorista metendo chumbo no acelerador…

    Agora, como iniciativa para redução de danos a proposta do governo de Política Nacional de Resíduos Sólidos tem mecanismos interessantes. Entre eles, a responsabilização de toda a cadeia produtiva – sim, senhor, incluindo o consumidor – pela destinação do lixo, palavra, aliás, que se busca exorcizar.

    O projeto foi apresentado na época da Marina Silva e sabe-se lá quanto tempo vai penar no Congresso (itens importantes já amargam 15 anos naqueles corredores).

    Aqui estão matérias da Sabrina Craide na Agência Brasil, que pautei e acompanhei como editor quando trabalhava lá:

    http://www.agenciabrasil.gov.br/search?SearchableText=sabrina%20pol%C3%ADtica%20nacional%20res%C3%ADduos%20s%C3%B3lidos&portal_type=Materia&sort_by=created&review_state=published&sort_on=getDataPublicacao&sort_order=reverse

  6. Amanda Says:

    Pedrim, o professor Genebaldo, da Universidade Católica de Brasília me falou que a UCB já recolheu nao sei quantas toneladas de pilhas usadas, só que aqui em BSB os fabricantes não querem recolher o material. Ele me disse ainda que, se a UCB não conseguir resolver essa pendência, isto é, fazer com que os fabricantes dêem uma destinação correta pra esses resíduos, vai rolar uma mega-manifestação. É, infelizmente, a causa ambiental ainda é de professores, alunos e abnegados, porque a discussão não chega com a mesma velocidade e “aderência” entre os “pulíticos” de plantão.

  7. Andre Deak Says:

    Pedron, sensacional. É isso. A gente até podia pensar em usar esse texto, ou uma versão desse texto. Lembrei do final do documentário do Al Gore, que achei bem bobinho, porque termina bonitinho, “não deixe a luz acesa”, “não brigue com seus pais”, lembro que achei meio assim. Acho que se é pra colocar texto, tem que ser texto que nem o teu, pra dar uma porrada na cara.

    Bastate inspirador para nossos projetos.

    abração

  8. cacalo Says:

    deak, porrrada na cara, mas sin perder la ternura… este é o nosso pedrim/pedron

  9. Andre Deak Says:

    En la lucha de clases
    todas las armas son buenas
    piedras
    noches
    poemas

    (leminski)

  10. eloise Says:

    não sei, pedrim, em geral sou meio cética, mas parece que essa crise econômica conseguiu aliviar um pouco o pé no acelerador do nosso caminhão rumo ao abismo.

    os últimos textos de análise econômica que tenho traduzido me deixaram com um pouco de esperança. já era tempo de começar a questionar esse paradigma de “crescimento” e “aceleração” e acho que a crise proporcionou isso, louvada seja! até os economistas estão se perguntando se essa cultura da ganância e do consumo é saudável. tinha um texto que falava sobre o resgate dos valores morais entre os franceses por conta das perspectivas ruins do setor de bens de luxo no país. outro dizia que a riqueza é necessária para uma vida boa, mas que, a partir de um certo ponto, ela corrompe o ser humano e a sociedade. e terminava falando sobre vícios e virtudes.

    sério. as pessoas estão falando sobre valores que não estão nas bolsas. isso era bem raro antes de setembro do ano passado.

    talvez já estejamos no caminho para descartar a hipótese absurda de um desintegrador nuclear de lixo. talvez ainda dê para puxar o freio de mão.

    mas o que mais me assusta é que a gente vai ter de lidar com os resultados do estrago que já foi feito no planeta, e que já começam a ser sentidos na pele.

  11. pedrobiondi Says:

    Então, Elô: nesse ponto, eu não sou desesperançoso, mas estou perto disso. Até acho que a relação das pessoas com a natureza está mudando, mas num ritmo muitomuitomuito aquém do necessário. Muita gente não dá valor a paisagem, sobrevivência de outras espécies e perfumarias assim.

    A crise econômica, nesse sentido, até gera um “refresco” – menos vendas de carros, por exemplo. Em anos recentes, fatores econômicos, como mudanças no câmbio e queda na cotação da soja e da carne, foram apontados entre os principais freios do desmatamento da Amazônia, porque num dado momento dificultaram a exportação desses produtos, aríetes da expansão agropecuária. Mas era conjuntural: as circunstâncias mudaram e logo nas medições seguintes soou o alarme da devastação.

    Mais ainda: o investimento pesado do Estado em infraestrutura (é assim que ficou a palavra com a reforma ortogonal?) recebe o tratamento de ás na manga para o país não submergir no crash mundial. Diversos estudos já enfatizaram o potencial de economia de energia com mudança de hábitos dos consumidores, repotenciação de usinas em funcionamento, melhorias nas linhas da transmissão. A gente vê o governo fazendo campanha pesada para as pessoas usarem racionalmente a energia? Quem consegue defender entre políticos e empresários a produção a partir dos ventos e do sol diante de projetos bilionários como o das usinas do Rio Madeira?

    É por isso que me anima o projeto com o André. Subversão, no sentido em que a Amanda falou. Sin elevar la temperatura.

  12. eloise Says:

    É vero tudo o que vc disse, Pedrim, e é bom que alguém tenha um pé na realidade… Talvez eu tenha fantasiado um tanto essa crise por conta da necessidade de acreditar em algo. Algo grande… Mas ainda desconfio que os efeitos dela irão além dos bolsos e safras, além do circunstancial. Quero crer que ela já estremeceu as idéias… Já deu a entender que basta de tentar colar castelo de cartas com cuspe.

    Time will tell… Com as pedras como testemunha. Enquanto isso, eu topo as noites e os poemas – embora sempre tenha a sensação de que é pouco. Daí querer acreditar num Deus ex Machina.

    Fiquei curiosa em relação ao “projeto com o André”. Por aqui, o que me anima é um trabalho de EA de vivências com a natureza (www.institutoroma.org.br), a permacultura como ideal, a composteira no quintal, e poder dialogar sobre isso tudo com vocês. Minha última subversão é tentar eliminar as baratas com essência de eucalipto pela casa. Abaixo os inseticidas de última geração!

  13. Antonio Says:

    De repente, chorei.

  14. Carolina Says:

    Pedro, faço uma campanha na empresa em que trabalho sobre consumo consciente (não foi uma atitude pessoal, faz parte da minha função). A relação com o consumo é mesmo algo muito complicado porque interfere na “liberdade” das pessoas, ou no que elas acreditam que seja liberdade… Quando implantamos a coleta seletiva fiz um pacto que faria e divulgaria as projeções positivas dos impactos gerados pelos atos responsáveis. Agora, estou numa segunda fase que é tentar mostrar exatamente o que você colocou no texto. Você foi direto ao ponto e fez tudo de forma muito criativa e leve. Parabéns! Vou ler seu texto sempre que precisar de inspiração para a campanha. Ah, você conhece o Instituto Akatu? (quem me falou de você foi o Rezende, por isso cheguei até aqui)

  15. pedrobiondi Says:

    Oi, Carolina! Me desculpe pela demora em responder. Bom saber que há pessoas, como você, tentando mudar as coisas… Muita gente resiste a mudar alguns hábitos que não custaria muito aposentar.

    Conheço o Akatu, sim. Acho interessantes essas iniciativas pró-consumo consciente. Mas, no caso de muitos produtos, não tem como a cadeia produtiva ser sustentável, né? Vai ser necessário desestimular a produção, e o cronômetro não tá folgado…

  16. Lidia Says:

    Pedro,
    Realmente, não há nada que me dê mais agonia (mesmo! quase-dor) que lixo inútil. Tenho 3 (TRÊS!) canecas espalhadas pela empresa para evitar os copinhos ao máximo!
    E me dói a espinha ver lata de alumínio no lixo normal.
    Conte com o apoio da nossa família! haha
    bjs

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