Em Brasília, 16 horas

Que bom que é sair mais cedo do trabalho de vez em quando.

Parece que você matou aula. Que se aposentou sem precisar envelhecer. Que saiu do hospital. Que acordou cedo sem querer no sábado. Que é domingo sem aquela inevitável melancoliazinha colateral.

Ir pra rua sob inequívoca luz diurna. E aí fica claro como é burra a temporalidade da nossa rotina. Como, para as coisas funcionarem, a gente artificializa o dia, nega suas nuances, encaixota qualquer vontade de quebrar a ordem, evita qualquer estrada vicinal. E tome ponto, e dá-lhe despertador, e viva o ar-condicionado, e que vençam as cortinas e a iluminação padrão 24 horas.

Hoje, desincumbido, me lancei a duas seriíssimas tarefas no caminho de volta. Uma, registrar em foto a gravidez espinhosa das paineiras-barrigudas, uma das poucas coisas boas de Brasília (ok, estou exagerando, mas só um pouquinho). Além delas, qualquer folhagem, palha, florzinha, grama, banco, criança tomando conta de criança, prédio em crescimento, senhora a capturar na lente e poodle de meias cor-de-rosa me divertiu.

Tudo tirado com o celular. Resultado com 3.2 megapixels de vagabundagem, mas, enfim: 16 horas.

Tarefa dois, batalhar alimento direto da natureza. Frutos rubros. Aproximei-me sorrateiro – pitangueira – e, com um pouco de suor e auxílio de galho-colheitadeira-lança, garimpei nada menos que sete.

Menos duas, que um policial aceitou de bom grado para esquecer a legislação que rege o extrativismo no perímetro urbano de cidades tombadas como patrimônio da humanidade.

Mas o importante foi que ele concordou.

Que é bom demais sair mais cedo do trabalho de vez em quando.

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3 Respostas to “Em Brasília, 16 horas”

  1. Amanda Says:

    é uma bênção!

  2. Lúcia Says:

    Que delícia, Pedro. Lembrei daquele conto do Raduan que o cara foge do trabalho, tira a roupa e deita na rede, lá pelas 3 da tarde… beijos pra você

  3. pedrobiondi Says:

    Mesmo gostando do meu trabalho, concordo com a Amanda. E, pra mim, uma volta no quarteirão (ou na unidade territorial equivalente) no meio da tarde tem efeito semelhante. Mostra que existe vida do lado de fora, que os vidros não nos prendem totalmente, que goiabeiras nas calçadas esperam quem literalmente as desfrute, que as crianças das escolas fazem barulho.

    Quanto ao conto lembrado pela Lúcia, “Aí pelas três da tarde”, é uma preciosidade. Quem não conhece deve conferir — numa redação ou numa rede, no horário-título.

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