Primeira, segunda e terceiras pessoas

Quem vem lá?
Ora, eu, teu pai…
Bem: pai, padrasto, inventor, pintor, você avalia…

Chama como achar melhor…

A gente varia…

“Não alimentes” –
E eu com a placa?

Esta penumbra
As lâmpadas para os dizeres de advertência…
O corredor era longo, uma vida
E eis-me aqui…
Vejo-te-me parecido
Você é segunda, é terceira e primeira pessoas
Como esses terceiros aí fora…
Como todos. Somos.
Ai, que se acotovelam
Vejo-te difuso
Disforme
Minúsculo
Enorme
Equívoco
Mas lá fora todos têm certeza – é você
É ele!
It’s it!
Ele é ela!
Mas
Oh shit
O que eles sabem?
“Não alimentes o personagem” –
Faço de conta
Enquanto você estala como bambu queimando
O cinza de sua pele sofre os tais lampejos maravilhosos
Sei que te lancinam
Seus olhos ganham verdade
Você parece de argila
E as opiniões se multiplicam
Ai, público…
Não quero entrar na sua jaula
Já estou dentro
E como sair?
Aqui as regras são suas
E eles lá fora
(É, vocês aí mesmo, matilha!)
Já entraram com os olhos.
E com o pensamento.
E com as quimeras.
E com os preconceitos.
E com os palpites.
E, ai saco, com o mercado…
Se eu não lhe der umas ordens, você não vai
Vai, sim… Já tem suas próprias pernas… Você já se cria…
Alto lá!
E agora se eu açucarar o chicote
Olha eles no banquinho. Contigo. Quietinho. Comigo.
Reparando bem, esse estoicismo você herdou de mim
E eu gosto, embora nem sempre use
e finja lamentar: “Uma merda, enxergar.”
Como herdou também esta cicatriz.
E me mentiu como te omiti
Te inventei muitas mulheres
Aquelas que não decifrei
nem me devoraram bem
Fiz-te judeu e fã de jazz pra não dizerem autobiográfico
Ou automático
E se alguém me perguntar sobre aquela brochada da página 80?
Ahn – é a vida que imita a arte?
OK, concordo com o senhor gordo da terceira fila
Quanto à segunda transformação.
– Se bem que, por que não? –
E, vá lá, o desfecho.
Mas desfecho cada um entende do seu jeito
(se é que entende, e se é que é pra entender).
Eles vêem estas letras por outro léxico
E até que é justo…
Até que é muito…
Mas este corredor é tão frio
Estas portas metálicas
E eles têm o escuro…
Se em vez de gastar a vista aqui cada um estivesse atuando em sua própria vida…
Não chegue tão perto
Que assim me iluminas
Nos querem ver tão parecidos
E eu não nos quero

Eles são irmãos!
Eis a brilhante conclusão de um senhor de brilhante careca

Que nada, esse monstro vai é devorar o moço!
Voilá, uma menina de brilhantes acessórios dispara a brilhante réplica
(E a gente fica sem critério pra saber quem era o moço e quem era o monstro)
Arrá, agora me desobedece…
Des-obedeça
O show é seu
Escolha um pescoço
(tigre)
Escolha uma bolsa
(rato)
Esbulhe uma esperança
(abutre)
Engula uma criança
(porco)
Mas não consigo não falar… desaparecer…
Quero me ver menos em você:

  • Não me repita;
  • Não me imite.

Nasceste para me matar
E pensar que te criei numa redação da oitava série
Já trafegava a oitenta no terceiro parágrafo,
Todo-onisciente,
o incauto,
Brincava de (ser) mosaico
quando me toquei da orientação:
em
terceira pessoa…
De modo que ali eu havia, de certo modo (e, de certo modo, acidentalmente),
me criado também.
Como sempre…
E havia de me descriar – transferindo o foco.
Ah, acha que tem vida própria, é?
Que se eu não escrever mais e ninguém ler você mesmo se lê-escreve?
Pois agradeça à senhora católica da última fila.
Se ela tivesse virado a página como fez menção, tua noitada do Capítulo III teria sido bem mais breve.
No momento em que contrata com um editor, a gente terceiriza:
O leitor/reescritor não é mais o ex-orientador ou a tia Adalgiza
(Neste inexato momento o cartunista da oitava fila fez cara de quem matou
a mais bastarda filha e teve que aturar na padaria, no táxi e no almoço de domingo
“Você não podia”, “De certa forma ela continua viva em mim”, “Cachorro, foi porque ela ficou mais famosa que você e você não aceitava”.)
Ai, que vejo nos seus olhos os melhores e os piores anos de mi vida…
E agora você está i-gual a mim. O que é péssimo. Ou, pelo menos, dificílimo:

  • Primeiro, não recomendo;
  • Segundo, não é bom para minha carreira.

Você vê: bem agora estavam prestando atenção à pipoca.
E, olha: vão rir bem no momento mais dramático.
Não sabem o quanto essa cena me dói?
Não distinguem comédia de tragédia.
Tragédia de comédia.
Mas, vá lá, elas são vizinhas; são a mesma mulher em diferentes dias.
E, infelizmente, são Eles que determinam quando é uma e quando é outra,
ao soltar a gargalhada ou caçar o lenço.

Algo me diz que é preciso ir andando.
Só que é tão terrível se desprender!
É como se desfazer
É como despregar
Acenar – um navio, um amigo
É como soltar – vai, barquinho de vínculo
Perder
Desinventar
Criar para o mundo
Desistir de explicar
E ver adiante uma estrada desconhecida,
Que a gente terá de desenhar sem domínio da mão.
E onde desconhecidos pedirão carona.
E essa estrada é como um autódromo…

Estou contra minhas próprias forças.
Chega de olhar nos teus olhos,
Me espelhar nos teus brilhos,
Enxergar através dos teus furos.
Chega de tuas mãos de papel para o sentimento do mundo.
Olhar para a parede do fundo.

Vejo além. Aleluia.
Você morre herói numa frase de duplo sentido.
Do lado de fora, aplausos e lágrimas e vaias.
Do lado de dentro, idem.
Idiotas.

Tags: , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: