Pô, Ivete

Em terra de sapos, de (croc) cócoras com eles. Nas terras de ACM, de cócoras com Daniela, Armandinho, Carlinhos, Ivete e Cia – do Pagode. E com Tchan e afins.

Assim, o amigo leitor me desculpe e não vá estranhar um fenômeno (localizado, espero) de axeização deste blog. Por que este blogueiro volta de uma semaninha nas terras sob as quais hoje ACM descansa em paz. Descansa?

Enquanto uma dinamarquesa que não tomou Dramin corre para o convés, e após a exibição de um passo-a-passo da amarração de um colete salva-vidas, o DVD parece se multiplicar. Em misteriosa saramagia, faz com que, conforme o catamarã avança, a ilha à qual esperávamos chegar se afaste. O mar e o DVD se ajustam: um não acaba, o outro é sem-fim.

Mas por que agora estas marítimas linhas, quando as pautas mais hard news da minha viagem seriam a sobrevalorização da porção de agulhinha e o fenômeno de horizontalização dos coqueiros praianos?

Será este sol na cabeça? É que me vi escrevendo que, no meio de muita coisa simplória, fraquinha, fabricada pra pegar ou vulgar ao extremo, o axé gerou algumas batidas empolgantes, alguns achados de prosódia e – ai, deve ser a caipirinha de rua do Mercado Modelo… – algumas peças pra encaixar no cancioneiro que retrata o povo brasileiro. E decorre daí que Ivete (pra não soar turista a gente deve chamar sem o sobrenome) não tinha o direito de me desapontar.

Ela – ou provavelmente seu produtor – teve um achado com “Festa”. Uma devolução ao povo que a idolatra, e um canal direto com ele. Uma linha de empatia e identificação. O refrão beira o libertário (ok, pros padrões do gênero) quando, depois de avisar “que vai rolar a festa”, completa: “o povo do gueto mandou avisar”.

Mais ou menos assim: a gente se ferra o ano inteiro, mas nestes exatos momento e local vamos extravasar a alegria – isso não é uma consulta, é um comunicado – e você, se quiser, vem aqui e aprende, dançando conforme a música. Qualquer diferença com o carnaval é mera publicidade, não?

 

Óbvio que ela não pode se fingir parte do povo do gueto, mas é como se cantasse no meio desse povo, de graça, diva descalça, feliz como em nenhum outro lugar: aceita e tributária. Madrinha da bateria da G.R.E.S. Povo do Gueto.

Um de nossos amigos/guias contou que a Daniela – “que é muito arrogante” – dispensou essa música. Puta furo, penso. Dela ou do seu produtor.

Mas aí o DVD chega nA Festa. E aí vejo que minha amiga Ivete – ou o produtor dela – encomendou pra música um clipe recheado de globais. Uma baladinha de celebridades, muitas delas celebridades de segundo escalão. E a “gente de toda cor”, e o “batuque de candomblé”? Só uma meia-dúzia de pessoas negras. Uma, também celebridade: Preta Gil. Outro, o segurança do evento, que se encarrega de dispensar um pobre dum besouro que o diretor do clipe fez de gato e sapato.

Sei que eu estou bem uns seis carnavais atrasado, mas, ao fim e ao cabo de mais uma água de coco, registro meu protesto. Pô, Ivete. Puta furo…


Tags: , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: