DOGVILLE É AQUI (aqui onde?)

Raparam o cabelo dela
Pra ninguém lá/cá fora saber uma menina entre os tigres –
Todo mundo sabia

Alguém jogou lá dentro
Alguém vetou sair
Alguém viu as mãos de socorro
Alguém fez não ouvir


Raparam pra ela virar um palito de fósforo,
a cabeça queimando

Paulada, Acorda, Isso ou nada de comida

Quem é pior:
Os dez que não usaram preservativo
Ou os dez que usaram e só não abusaram no dia de visita,
Cabelo escovado pra esperar esposa, mãe, filha?

Raparam a alma dela, e, solta, ela saltita. A alma viva.
É a vida.

Quem é pior? A delegada? O carcereiro? A governadora? O prefeito? A juíza?

Dezenove, garantem as locais autoridades. Quinze, o pai afirma. A dentição confirma.

Quem é pior? Eles ou nós? Você ou eu?
Omissão, silêncio, repetição, distância.

Vamos escrever um manifesto? Reportar os atrasos nos aeroportos? Chorar no ônibus? Reconstruir o partido? Debater o aborto? Defender a Amazônia? Fazer arte engajada? Botar nariz de palhaço? Falar mal do Bush? Trabalhar com honestidade? Respeitar o próximo? Cair pra luta armada? Entrar pra pastoral? Sair do Brasil? Algo disso vai resolver?

Pra que lado fica Dogville?
Lá dentro ou aqui em volta?
Dentro ou fora – de cada um?

Quem pode fazer literatura sobre o caso?

E jornalismo, quem tem direito?

Porra, quem pode dormir???

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9 Respostas to “DOGVILLE É AQUI (aqui onde?)”

  1. Pablo Villaça Says:

    Belíssimo, Pedro. E impactante como o caso que o inspirou.

    Dentro das possibilidades que estas tragédias nacionais nos permitem, um feliz 2008 pra você.

  2. pedrobiondi Says:

    Valeu, grande Pablo.

    Um feliz 2008 pra você também. Com menos histórias como essa, espero.

  3. Aloisio Milani Says:

    Quando li esse seu texto fiquei impactado. A sensação é a mesma que me fez, entre 2001 e 2002, pesquisar o tema do abuso e da exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. Virou o meu livro-reportagem “Lagamares”, que conta histórias dessa violência no Brasil. Lá também tinha o caso de uma Paulinha, que, desde os 9 anos, trocava sexo (se é que é possível dizer isso) por pedras de crack ou simples ovos de páscoa. O local não era o Pará, era a periferia de Fortaleza, chamada Lagamar. Na etimologia, vem de lagos, alagadiço. De maneira figurada, uma lacuna. Social.

  4. Maria Says:

    Lindo, Pedro!
    E a comparação com Dogville dá pano pra manga…
    Beijo

  5. pedrobiondi Says:

    Alu, Maria,

    é uma história realmente terrível. E a descrição do reencontro da menina com a família, feita por uma das repórteres enviadas a Abaetetuba, dá claramente a imagem de uma criança que saiu de uma situação de opressão – e que, criança que é, irradia alegria assim que pode, apesar dos vinte e tantos dias de tortura.

    E o pior é saber que milhares e milhares de crianças e adolescentes estão em situação muito parecida, como o Aloisio lembra.

  6. Amanda Says:

    To sem palavras… dê me um minuto…

    .
    .
    No dia que ouvi a notícia desse crime pensei que qualquer esboço de indignação de minha parte seria um gesto pequeno diante da tragédia. Esse fato exige de nós uma reflexão profunda sobre o que nós podemos fazer sobre isso – certamente apontar o dedo na cara de alguém não resolverá. Mas há que se fazer algo. E o seu texto colabora para isso, para ampliar nossa sensibilidade, para sairmos de um estado de choque e pararmos de ficar jogando o problema para os outros.

  7. pedrobiondi Says:

    O caso exige mesmo que a gente pare pra pensar, Amanda. Fico feliz de ouvir que o texto contribui pra isso, mas permanece aquela impressão de que muita coisa vai demorar muito pra mudar…

  8. Aécio Amado Says:

    Somos um país de mortais e imortais.
    Dos torturados e dos torturadores.
    Dos indignos e dos indignados.
    Das meninas e do esquecimento.
    Da informalidade e dos formuladores.
    Dos juristas e dos justiceiros.
    Dos sertões e do tempo e o vento.
    Dos versos e dos reversos (pinados).
    Das milícias e dos maliciosos.
    Dos bopes e dos pagodeiros.
    Dos josés e dos sacolés.
    Da interrogação e da interjeição.
    Dos canalhas e das bandalhas.
    Dos kolynos e dos nelsons sargentos.
    Dos profetas e dos grafiteiros.
    Dos otelos e dos iagos.
    Dos assaltos e dos sobressaltos.
    Dos daqui e dos de lá.

  9. pedrobiondi Says:

    Falou e disse, dom Aécio. Por escrito…

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