Vida de Gado é o nome da série de fotografias que publiquei recentemente no flickr.
Vacas e bezerrões em preto e branco.
A porteira fica no canto direito desta tela.
Vida de Gado é o nome da série de fotografias que publiquei recentemente no flickr.
Vacas e bezerrões em preto e branco.
A porteira fica no canto direito desta tela.
Tão bom
Depois dela Brasília ficou como se moça
recém-saída do banho
Ano passado foram mais de
quatro meses sem um pingo
(leia o relato aqui).
Este ano, creio, menos.
“É um ano atípico”, muitos
têm comentado. Mas esse
é um comentário bem típico.
sobre a Praça do Compromisso:
foi lá que cinco jovens de Brasília queimaram vivo o índio pataxó hãhãhãe Galdino Jesus dos Santos, que dormia num ponto de ônibus, em 1997. O local é hoje mais conhecido como Praça Galdino.

A fotinho acima, recente, é minha, mas vale ver os belíssimos registros (este e este) feitos pelo fotógrafo Marcello Casal Jr. durante a manifestação que marcou o décimo aniversário do crime – aliás, 20 de abril.
Também ali foram assassinados dois moradores de rua este ano.
A crônica “Brasília não pode parar?”, publicada três posts abaixo, está na fila de votação do Overmundo. Por sinal, um espaço de compartilhamento bem interessante, com edição participativa e outros recursos no mesmo espírito, e que eu uso pela primeira vez.
Quem gostou do texto e quiser votar, clique na imagem abaixo (e se cadastre lá, se ainda não tiver login). Vale até a noite de domingo*. As colaborações bem votadas entram pro arquivo da página.
* Com base numa conta malfeita, eu tinha
escrito que o prazo ia até segunda…

Imagino que, com o resfriamento da economia, os tratores resfriar-se-ão também. Reconheço que o que vou descrever possivelmente se explica por uma impressão, uma intuição, um sobressalto, uma subjetividade sem âncora na medição. Às vezes nossa calculadora fisiomental erra feio. Acontece muito, por exemplo, com a sensação de violência. Nem sempre as cidades cujos habitantes ou visitantes tomam por violentas são, efetivamente, as mais barra-pesada. Determinados acontecimentos, parâmetros insuficientes, a cobertura da mídia, um comentário da Ana Maria Braga, sei lá o que mais, podem gerar distorções que consolidam certos retratos. Mas, enfim, desfiada a ladainha dos isso-e-issos, a imagem de Brasília para mim nestes tempos é a de um canteiro de obras.
Ai.
Que isso não é bom – digo com o coração, sem nenhum risco de recair em precisão mental, diria mestre Manoel de Barros.
Sim, ok: sem dúvida que o Plano Piloto, dentro do seu relativamente rigoroso tombamento, ainda comporta o preenchimento de um certo número de lotes. Algumas superquadras, as franjas da UnB… Especialmente se considerarmos a disponibilidade de transporte e outros serviços na W3 e na L2, algum adensamento é cabido. Mas, assim como o Doutor-Oscar tem o direito de desejar – só desejar – o revestimento de tudo com cimento, eu tenho o direito de me agoniar com a colocação de feijões de pedra nas casinhas ainda vagas da cartela.
Uma das coisas de que mais gostava no meu bairro em São Paulo eram os espaços remanescentes. Gastar a sola dos pés baldios por ali era uma delícia: terrenos fadados a matagar, concertos para solo de bico-de-lacre, árvores rompendo calçadas aqui e ali, cachorrada s.r.d. viralatando, crônicas ferrugens desfazendo os autoimóveis, anacrônicas ruas de terra alimentando as brincadeiras de polícia da molecada. Um dia tive a alegria de descobrir numa baixada, entre vários prédios de relativo luxo, um improbabilíssimo casal, os dois já velhinhos, modestos, levando a vida numa espécie de rancho, uma casa de estirpe bem interiorana num terreno espaçoso. Isso numa região consolidada, embora não central, da metrópole.
Faz uns cinco anos essa descoberta do Recanto Zé e Zefa (chamemos assim), e imagino que inconscientemente decidi evitar o local pra não ter uma decepção. Sabe aquela coisa de praia que só a gente conhece e de repente fica repleta de caixas de som sobre rodas? Alguma razão eu tinha: naquela comarca, nos últimos quinze anos os arranha-céus brotaram, os veterinários se reproduziram, as natações transbordaram, carros mil foram adotados, numa espécie de PAC Bairro. Tudo dando certo demais – só podia dar errado.
Aqui, há exatos três anos e 11 meses, reencontrei isso. Digo, aquilo – a persistência dos ermos. Uma das lembranças mais agradáveis, e mais emblemáticas, é a de um dia em que uma insônia matinal, reiterada por uma gangue de periquitos rasgando paina e zoneando na janela, me jogou fora da cama 6 da manhã. Alvorada presenciada, saí para andar pelas redondezas, na Asa Norte.
Orvalho nas teias – não era ainda tempo da famigerada seca – e um frescor de sítio me deram um belo alento de chegada. Guiado por misteriosa bússola, eu, que ainda não tinha feito o reconhecimento pedestre da vizinhança dos meus anfitriões (estava instalado na casa de amigos), fui parar num terrenão entre dois blocos, sem uso exceto por um campinho de pelada. Na marcação do tempo, um e outro flauteio de anu-branco, que pra mim sempre foi índice de ruralidade. Açude algum por perto? Bambuzal? Não preciso dizer que naveguei esse e similares descampados em vários fins de tarde.
Bom, saiamos dos cases e do tom divagatório para seguir na busca do que se tenta dizer aqui.
Há o gosto de morar numa cidade que até o momento, sob vários aspectos, é uma não-cidade, como já bem definiram. Ou de ter em volta um pouco de verde e de brecha para percorrer o horizonte. Existe a tendência de valorizar aquilo que sua terra natal, ou sua paragem anterior, não tem. Tudo se soma, quem sabe, a uma vaga esperança de presenciar o espraiamento de um outro modelo de desenvolvimento urbano, mais humano e menos feroz.
Sou obrigado a admitir que uma palavra-chave talvez traduza tudo isso melhor que quaisquer elementos objetivos e/ou comparativos: apego.
Isso posto, senhores e senhoras, alarmem-se junto comigo: as fotos exibidas neste botequim foram tiradas entre três e uma semanas atrás, e já se amarelaram. No lugar de blocos de concreto à espreita, imaginem canteiros e gramado. Calculem tijolo e cimento onde só há vigas, e tinta ou azulejo onde só tijolo e cimento. Enxerguem coqueiros adolescentes e, por que não?, uma fonte para refrescar a vista. Pintem um pesado monólito no lugar de cada cratera. Dispam dos tapumes os novos caixotões de se abrigar ou merecer dinheiro.
Obra é assim, num minutinho passou: só dá pra gente se apegar se vira ruína.