Arquivo da categoria ‘La Paulicéia’

Destruição da Amazônia: imagem para campanha

Novembro 11, 2009

“Yukike” São Paulo tem a ver com a destruição da Amazônia? É o maior centro consumidor e distribuidor de seus produtos (incluídos os ilegais), respondem as ONGs que acompanham as questões da região. Não por acaso, amanhã a cidade sedia a segunda edição do Seminário Conexões Sustentáveis.

Não conseguirei assistir, mas deixo aqui minha sugestão copyleft para uma campanha pró-consumo consciente com vistas a um uso que garanta a conservação do bioma. A  imagem-síntese que sugiro é um grande bife malpassado sobre uma salada de copas de árvore. Ao lado do prato, os talheres – no lugar da faca, uma motosserra.

Um macaquinho pode se pendurar na borda do prato, se necessária maior dramaticidade. Ou mesmo uma pessoa – índio, ribeirinho, coletor de açaí, enfim, alguém daqueles segmentos mais diretamente afetados pela exploração predatória. Indiretamente, o mundo inteiro sofre os impactos, não custa lembrar.

Fórum Amazônia Sustentável, Greenpeace, ISA, Repórter Brasil… Se alguém se interessar pela imagem, fique à vontade.

Desenhos e gravuras de Angela Leite na USP

Maio 21, 2009
"Mocó", gravura de Angela Leite

"Mocó", gravura de Angela Leite

De 27 de maio a 08 de junho, trabalhos da artista vão compor a mostra “Trilha Natural Brasileira”.

São 23 desenhos recentes e inéditos e 37 xilogravuras, representativas de suas quatro décadas de carreira.

Comentei a linda obra de Angela – mãe deste orgulhoso pastor de zebras – no texto “Nossos bichos e plantas vertidos em arte”.

A exposição é no Instituto de Biociências da USP. Abertura dia 26, às 19 horas. O caminho-das-pedras taqui no Overmundo, onde é possível votar para manter o texto de divulgação em destaque.

Melhor nos pátios que nas ruas

Dezembro 8, 2008

É a conclusão do José Simão diante da manchete “300 mil carros parados nos pátios”. Apoiado. Se existem efeitos colaterais positivos da crise financeira internacional, essa estancada no escoamento de automóveis – e logo, pode-se esperar, em seu “brotamento” – é um deles, assim como um chá de sossega-leão no desenvolvimentismo do Brasil-canteiro-de-obras.

Claro que ninguém aqui está comemorando o fechamento de milhões de postos de trabalho que pode resultar disso. A questão é o anacronismo do peso que a indústria automobilística mantém no país e no mundo.

A produção de veículos funciona como uma espécie de termômetro da saúde econômica, porque a compra do carro zero ainda é um dos principais objetivos da poupança individual. Assim, em tempos de estabilidade, crédito farto e alta na renda dos brasileiros, as montadoras faturam.

Estimativas do setor apontam para um crescimento de 17% nas vendas este ano, mesmo com o cenário conturbado dos últimos meses. Isso significa perto de 5 milhões de veículos (carros, motos, caminhões, ônibus e outros)* a mais rodando (ok, um pouco menos, porque uma parcela da frota é “aposentada” a cada ano, e há os que saem de circulação devido a acidentes também).

Nenhum problema no saldo positivo não significasse ele mais 4 milhões ou 5 milhões de escapamentos na ativa. A emissão de gás carbônico é apontada como a principal causadora do aquecimento global, e a queima de combustíveis fósseis (em especial o petróleo) constitui sua fonte mor. Na Grande São Paulo, a poluição gerada por veículos já supera a das indústrias.

Sem falar na sustentabilidade das cidades. São Paulo, com seus 6 milhões de veículos individuais (um para cada dois habitantes) está literalmente intransitável. Se o rush era um sofrimento diário havia tempos, hoje o que se ouve é que não tem mais essa de horário de trânsito livre. Minhas passagens recentes na cidade confirmam…

A Brasília das vias rápidas, ainda contrastante com a capital paulista, tem uma jibóia de tráfego que engorda mês a mês. Três anos atrás eu não via engarrafamentos na Esplanada. Agora, é soar o gongo das 18 horas e a saída dos servidores cria um nó chatérrimo. Anacronicamente, o emplacamento do milionésimo carro candango foi aplaudido pelo governo do Distrito Federal.

Poucos prefeitos assumem políticas mais radicais de restrição do transporte individual, atacadas pelos opositores como cerceamento do direito de ir e vir. Em São Paulo, o rodízio de placas permanece irrevogável há várias gestões, mas teve os resultados minimizados, pois parte da população preferiu comprar um segundo carro (ainda que velho) a encarar os ônibus lotados. Volta e meia retorna a idéia do pedágio urbano, que considero elitista: quem paga pode rodar. Nem proibindo os caminhoneiros de circular nas áreas centrais em grande parte do dia Kassab chegou perto de desfazer o nó paulistano.

Marta, quando prefeita, levou adiante uma relevante ampliação nos corredores de ônibus, que lhes deu uma velocidade superior à dos carros em alguns dos eixos da cidade. A medida, como a progressividade no IPTU, foi mal-recebida pela classe média, camada na qual sua votação impediu que se reelegesse em 2003 e contribuiu para a nova derrota em 2008. Sintomático que mesmo ela, em entrevistas no início da campanha da última eleição, tenha adotado um tom mais conciliador ao tratar do assunto.

O metrô é considerado “limpo” do ponto de vista da emissão de gases poluentes, mas tem um custo urbanístico maior, por causa das desapropriações e da realocação dos moradores das áreas escolhidas, especialmente em cidades adensadas. Seu avanço nas capitais esbarra no xadrez partidário. A colheita de dividendos políticos se dá principalmente no âmbito do município, já que os resultados aparecem na ponta. E os gastos geralmente transcendem o orçamento municipal. Aí, se o governador não é aliado do prefeito, já viu: não bota dinheiro. O mesmo entre o governo federal (que financia a expansão das linhas via BNDES) e as duas esferas inferiores.

As ciclovias recebem o clássico tratamento de “cereja do bolo” e, sem previsão nos projetos iniciais das novas vias, ficam inviáveis. Sem elas, não é exatamente uma atividade segura se transportar de bicicleta numa megalópole apocalíptica e cataclismática, como a São Paulo descrita por Jay Mahal e China Kane, dois reggaeiros-locutores que eu ouvia no rádio durante os congestionamentos.

Na etapa paulistana da primeira Conferência das Cidades, lembro-me do empenho do Movimento Nacional por um Transporte Público de Qualidade (MNTP) pela extinção das ações governamentais pró “carro para todos”, e da esperança numa virada nesse sentido com o governo Lula. Ela não aconteceu, como mostram as medidas de socorro ao setor anunciadas recentemente.

Parece difícil negar que a solução passa muito mais por uma combinação de modalidades de transporte coletivo e/ou “limpo”, na qual o carro tenha um papel complementar, do que com a política de garantir que todo brasileiro com renda possa ter seu carrinho ou carrão e exercer o direito de viajar de porta a porta dentro dele – e tome avenida nova no mapa.

Resta perguntar que governante vai encarar esse desafio para valer. As montadoras – como, de modo geral, os grandes grupos industriais – são financiadoras importantes de campanhas, e essa turma costuma apostar em todos os candidatos com boas chances. Bom, existe almoço grátis? Esses grupos são, ainda, anunciantes de peso para os veículos de comunicação – gasolina sem a qual eles não rodam.

Num cenário como o atual, de esgotamento de matérias-primas, escalada dos problemas urbanos e agravamento das mudanças climáticas, a supremacia do transporte individual se traduz numa imagem altamente contraditória, que sintetiza também a manutenção do modelo de desenvolvimento em vigor: um automóvel a 120 por hora numa descida íngreme. Com o motorista (as empresas, os governos, as nações, a humanidade) pisando fundo, em vez de frear.

* O texto foi corrigido. Mencionva “5 milhões de carros a mais rodando”, ao passo que a projeção citada dizia respeito a veículos em geral.

É casado? Tem filhos?

Outubro 14, 2008

Sem comentários, essa da campanha da Marta…

Mar que arrebenta

Agosto 14, 2008

É o subtítulo do livro de contos Rasif, que Marcelino Freire lança amanhã, digo, hoje, com gravuras de Manu Maltez.

A esta hora da madruga (01:24, digo, 01:33), o que posso dizer é que são dois artistas que recomendo, além de amigos queridos. E uma bela dupla. Pude ver, rapidamente, as provas quase finais do livro e o achei impactante.

Assim que tiver o livro nas mãos, devorá-lo-ei qual Jânio Quadros a Leonardo Di Caprio, como diria Djavan. Ou bebê-lo-ei, dado que é mar. E registrarei minhas impressões aqui.

Mais duas semanas para ver a obra de Ely Bueno

Julho 4, 2008

Foi prorrogada até o dia 20 a exposição da artista plástica, que já comentei aqui, na Estação Pinacoteca, em Sampa.

Vale muito a pena. A mostra está bonita, representativa da obra dela. Tem nanquins, do início de carreira, que resultam de uma verdadeira teia de grafismos; litogravuras mais minimalistas e que compõem uma espécie de natureza-morta da vida doméstica; delicados desenhos de observação; outros que mergulham no surrealismo e trazem referências à linguagem dos quadrinhos. E retratos e nus, gêneros em que ela é craque.

Acho que só faltou um toque “cênico” na disposição dos trabalhos, coisa que Ely também faz muito bem.

Para uma exposição mais completa, ali estariam também belíssimas pinturas a óleo e interessantes recriações em que o mobiliário vira conceito ou mesmo personagem.

Deixo aqui mais um desenho como amostra da produção de Ely. E o link do onde/quando/etc. para os navegantes da paulicéia.


Quatro décadas de sensibilidade

Abril 10, 2008

Quatro décadas do trabalho de uma grande dama da arte (qualifico-a assim sem um pingo de dúvida) estão sintetizadas na exposição de Ely Bueno na Estação Pinacoteca.

São 45 desenhos e gravuras, amostra de uma obra marcada pela relação com a condição feminina e com o inconsciente. De força dramática e, ao mesmo tempo, de muita consistência técnica. Uma obra em constante reinvenção, sempre ao largo dos modismos.

Segundo a definição do crítico Fábio Magalhães, “os desenhos de Ely Bueno estão contaminados pelas suas vivências, exprimem aspectos íntimos de sua alma feminina e retratam lembranças guardadas em lugares recônditos da sua memória”.

A imagem acima não faz parte da mostra. Está na capa do livro A Máscara do Real, sobre a trajetória da artista, que será lançado lá.

Ely é minha madrinha – mas o elogio nada tem a ver com isso. Vão lá e comprovem, bróderes e sísteres.

A exposição vai deste sábado (12) até 15 de junho. Detalhes aqui.

O Fim do Mundo

Março 28, 2008

Extra: prorrogada a temporada de Manu Maltez e Grupo Cardume na Casa de Francisca. Além do próximo, todos os sábados d’ abril (ver post anterioire).

Aproveito e publico aqui o poema que escrevi para acompanhar “Fim-do-mundo”, música instrumental do disco As Neves do Kilimanjaro.

 

O Fim do Mundo não é quando,
É onde:

Disso os antigos já carecas, com escorbuto
E arrepio.

Começa onde dormiu a última estrela,
e onde três meninos de galochas,
cientificamente,
caçam o rosto de ser meninos…
Esquecem de algum futuro.

Sua primeira namorada é um porquinho-da-índia?
Ou já amantes de sereias?
Sereia-traíra, sereia-lambari, sereia-cascudo.

O fim-do-mundo é um bagre azul
Que leva as estrelas no bucho,
Espadana dentro da poça morna de um piano
Ronronca num contrabaixo
E estrebucha na saída do túnel de metal de um sopro.

O fim do mundo é bom:
É o fim do fim da picada
Começo de um começo
Deus se des-re-inventando
Cobra verde caçando a própria cauda
Imprópria alma
Em algum muro de alguma grande cidade.

 

O Fim do Mundo não é relato
É fato
Que acabou.

 

 

 

 

 

Música pra ver

Março 27, 2008

Lembram que escrevi sobre o desenhista/gravurista Manu Maltez? Então, o cabra também é músico dos bamba. E está, com o Grupo Cardume, na Casa de Francisca, um barzim bem ajeitado, desses com luz de velas, que a megalópole apocalíptica e cataclismática esconde aqui e ali.

Eles fazem música brasileira com um lado instrumental forte, arranjos originalíssimos e letras refinadas.

Noutra tentativa de definir, eu diria que a música do Cardume é na verdade cinema sem imagens. Numa faixa delicada os ruídos da cidade podem irromper num feixe de metais (“Francisco – eu ando assustada”) sem comprometer a poesia. Ou o ouvinte pode se deixar levar por um córrego para o Fim-do-mundo, lugar sublime. E assim vai.

(mais…)

Dois convites em cima da hora

Dezembro 14, 2007

Camaradas, escrevo para convidá-los – absolutamente em cima da hora – para dois eventos em Sampa neste fim de semana.

Nem preciso dizer que terei exemplares do meu livro/filho a tiracolo para os interessados, né? Mas isso é secundário. Confiram abaixo.


Lançamento do site com a obra de Aloysio Biondi
Local: Sabiá – Rua Purpurina, 370 (esquina com a Fidalga) – Vila Madalena
Sexta, dia 14, a partir das 20h – Entrada gratuita
Informações: 7488-5449 / 8542-3042

A página foi montada a partir do projeto de memória O Brasil de Aloysio Biondi. É um projeto coletivo, que reuniu mais de 50 pessoas em participação voluntária de sete anos para cá. Participaram parentes, amigos, ex-alunos e leitores do meu pai, jornalista que deixou um grande legado de ética e luta por um país melhor.

A partir de hoje estarão disponíveis no endereço www.aloysiobiondi.com.br cerca de 800 de textos dele, entre artigos, entrevistas e reportagens. O site também trará depoimentos em áudio e vídeo, fotos, homenagens e reproduções fotográficas de alguns de seus principais escritos.

Foi um longo trabalho, com pessoas ajudando de todas as partes do país em contato via internet, tendo meu irmão, Antonio, como o principal organizador/incentivador. Incluiu digitação e escaneamento de textos, pesquisa em bibliotecas, revisão, recuperação de materiais e, claro, a montagem do site. Agora é a hora de comemorar!

Exposição/bazar de Angela Leite
Local: Rua Atlântica, 195 (entre a Rua Estados Unidos e a Avenida Brasil) – Jardins
Domingo, dia 16, das 14h às 22h
Informações: 3743-7567 / 8542-3042


É a tradicional exposição que minha mãe faz no fim do ano, mas desta vez não será na casa dela.

Estarão expostas gravuras, camisetas e cartões, todos com animais e árvores brasileiros como tema.

Para quem não conhece o trabalho dela, eu tento resumir: combina precisão quase científica no traço com graça artística e uma ligação profunda com a natureza.

Os convidados receberão gratuitamente uma muda da mata atlântica ou do cerrado, para ajudar na recuperação desses biomas.