Raparam o cabelo dela
Pra ninguém lá/cá fora saber uma menina entre os tigres –
Todo mundo sabia
Alguém jogou lá dentro
Alguém vetou sair
Alguém viu as mãos de socorro
Alguém fez não ouvir

Raparam pra ela virar um palito de fósforo,
a cabeça queimando
Paulada, Acorda, Isso ou nada de comida
Quem é pior:
Os dez que não usaram preservativo
Ou os dez que usaram e só não abusaram no dia de visita,
Cabelo escovado pra esperar esposa, mãe, filha?
Raparam a alma dela, e, solta, ela saltita. A alma viva.
É a vida.
Quem é pior? A delegada? O carcereiro? A governadora? O prefeito? A juíza?
Dezenove, garantem as locais autoridades. Quinze, o pai afirma. A dentição confirma.
Quem é pior? Eles ou nós? Você ou eu?
Omissão, silêncio, repetição, distância.
Vamos escrever um manifesto? Reportar os atrasos nos aeroportos? Chorar no ônibus? Reconstruir o partido? Debater o aborto? Defender a Amazônia? Fazer arte engajada? Botar nariz de palhaço? Falar mal do Bush? Trabalhar com honestidade? Respeitar o próximo? Cair pra luta armada? Entrar pra pastoral? Sair do Brasil? Algo disso vai resolver?
Pra que lado fica Dogville?
Lá dentro ou aqui em volta?
Dentro ou fora – de cada um?
Quem pode fazer literatura sobre o caso?
E jornalismo, quem tem direito?
Porra, quem pode dormir???
Tags: abaetetuba, criança e adolescente, direitos da mulher, direitos humanos, dogville, eca, pará, presídios, sistema carcerário
Dezembro 29, 2007 às 11:47 pm |
Belíssimo, Pedro. E impactante como o caso que o inspirou.
Dentro das possibilidades que estas tragédias nacionais nos permitem, um feliz 2008 pra você.
Dezembro 30, 2007 às 8:56 pm |
Valeu, grande Pablo.
Um feliz 2008 pra você também. Com menos histórias como essa, espero.
Dezembro 30, 2007 às 9:19 pm |
Quando li esse seu texto fiquei impactado. A sensação é a mesma que me fez, entre 2001 e 2002, pesquisar o tema do abuso e da exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. Virou o meu livro-reportagem “Lagamares”, que conta histórias dessa violência no Brasil. Lá também tinha o caso de uma Paulinha, que, desde os 9 anos, trocava sexo (se é que é possível dizer isso) por pedras de crack ou simples ovos de páscoa. O local não era o Pará, era a periferia de Fortaleza, chamada Lagamar. Na etimologia, vem de lagos, alagadiço. De maneira figurada, uma lacuna. Social.
Dezembro 30, 2007 às 11:46 pm |
Lindo, Pedro!
E a comparação com Dogville dá pano pra manga…
Beijo
Janeiro 1, 2008 às 10:30 pm |
Alu, Maria,
é uma história realmente terrível. E a descrição do reencontro da menina com a família, feita por uma das repórteres enviadas a Abaetetuba, dá claramente a imagem de uma criança que saiu de uma situação de opressão – e que, criança que é, irradia alegria assim que pode, apesar dos vinte e tantos dias de tortura.
E o pior é saber que milhares e milhares de crianças e adolescentes estão em situação muito parecida, como o Aloisio lembra.
Janeiro 9, 2008 às 2:08 pm |
To sem palavras… dê me um minuto…
…
.
.
No dia que ouvi a notícia desse crime pensei que qualquer esboço de indignação de minha parte seria um gesto pequeno diante da tragédia. Esse fato exige de nós uma reflexão profunda sobre o que nós podemos fazer sobre isso – certamente apontar o dedo na cara de alguém não resolverá. Mas há que se fazer algo. E o seu texto colabora para isso, para ampliar nossa sensibilidade, para sairmos de um estado de choque e pararmos de ficar jogando o problema para os outros.
Janeiro 12, 2008 às 8:58 pm |
O caso exige mesmo que a gente pare pra pensar, Amanda. Fico feliz de ouvir que o texto contribui pra isso, mas permanece aquela impressão de que muita coisa vai demorar muito pra mudar…
Janeiro 14, 2008 às 9:11 am |
Somos um país de mortais e imortais.
Dos torturados e dos torturadores.
Dos indignos e dos indignados.
Das meninas e do esquecimento.
Da informalidade e dos formuladores.
Dos juristas e dos justiceiros.
Dos sertões e do tempo e o vento.
Dos versos e dos reversos (pinados).
Das milícias e dos maliciosos.
Dos bopes e dos pagodeiros.
Dos josés e dos sacolés.
Da interrogação e da interjeição.
Dos canalhas e das bandalhas.
Dos kolynos e dos nelsons sargentos.
Dos profetas e dos grafiteiros.
Dos otelos e dos iagos.
Dos assaltos e dos sobressaltos.
Dos daqui e dos de lá.
Janeiro 17, 2008 às 9:15 pm |
Falou e disse, dom Aécio. Por escrito…